Em todas as celebrações eucarísticas ouvimos a proclamação
da Igreja, que ressoa a Escritura: "Felizes os convidados para a Ceia do
Senhor" (Cf. Ap19, 9). E é grande a alegria por saber que o chamado de
Deus quer incluir a todos. Na oração do Rosário, o terceiro mistério luminoso
nos faz contemplar justamente o chamado à conversão, que ocorre com o anúncio
do Reino de Deus. É que da parte do Senhor existe a clara vontade de salvar a
todos, envolvendo as diversas gerações e situações humanas. Ao se tratar de uma
grande consolação, resulta igualmente provocante a responsabilidade entregue à
liberdade humana, pois Deus não impõe, mas convoca e convida. Conversando com
um jovem em recuperação na "Fazenda da Esperança", Comunidade
Terapêutica presente em tantas partes de nosso país e do mundo, ouvi uma
afirmação surpreendente. Dizia ele que seu drama maior era uma porteira aberta,
por saber que, se quisesse, poderia ir embora. Sabia que o maior presente dado
por Deus era entrar pelos umbrais da liberdade que o conduziam, pela estrada do
Evangelho, a uma vida nova!
Jesus estabeleceu contato com todas as classes de pessoas,
pelo que escandalizava a muitos. Era uma multidão de estropiados, rejeitados da
sociedade, doentes de toda ordem, gente solitária, publicanos, pecadores de
qualquer classificação. O Evangelho apenas permite entrever os dramas humanos
que se apresentavam ao Senhor. Não muito diferente das imagens oferecidas ao
vivo e a cores em nossos dias, com pessoas sofrendo toda espécie de miséria. As
guerras localizadas ou espalhadas por nossas cidades pela violência e a miséria
mostram um mundo machucado e desorientado, carente de encontrar aberta a porta
do Reino de Deus! Que seja uma imensa procissão em busca de Deus! Que a meta
seja o regaço misericordioso daquele que veio para os pecadores!
Também nossa história pessoal é repleta de idas e vindas,
marcadas pelo mistério do pecado, malgrado o desejo de acertar esteja presente,
pela própria vontade de Deus que nos criou. Muitas vezes damos nossa resposta
positiva aos apelos de Deus e depois seguimos por outra estrada, cedendo ao
egoísmo, turrões, cabeças duras que pretendem ser donas da verdade. Podemos ser
também como o filho pirracento do primeiro momento que depois se converte e
obedece ao Pai. "Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro,
disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ O filho respondeu: ‘Não quero’.
Mas depois mudou de atitude e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a
mesma coisa. Este respondeu:‘ Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi" (Mt 21,
28-30). Cada pessoa sabe de sua aventura humana de liberdade, quedas,
arrependimento, coragem para recomeçar, pedidos de perdão aos milhares,
encontros com a misericórdia de Deus. Escute a palavra de Deus: "Quando um
ímpio se arrepende da maldade que praticou e faz o que é direito e justo,
conservará a própria vida. Arrependendo-se de todos os crimes que cometeu, ele
certamente viverá, não morrerá" (Ez 18, 27-28).
O contato de Jesus com as pessoas é marcado pelo chamado
constante à conversão. O início de sua pregação resume a proposta que faz à
humanidade: "Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galiléia,
proclamando a Boa Nova de Deus: Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está
próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova" (Mc 1, 14-15). Os cobradores
de impostos convertidos e as prostitutas que acreditaram em Jesus, mudando
radicalmente sua vida, são referências da possibilidade de transformação
inscrita por Deus no coração humano (Cf. Mt 21, 28-32).
Os publicanos, cobradores de impostos, traidores do povo por
trabalharem para os romanos, manipulavam a fonte permanente de tentação para o
ser humano, o dinheiro! A malversação das verbas públicas e as torneiras
abertas, pelas quais passam milhões e bilhões, ainda estão expostas diante de
nossos olhos, nos dias que vivemos. Multiplicam-se os escândalos, revelam-se
operações fraudulentas, mas o "deus dinheiro" continua atraindo as
pessoas, traindo-as mesmo quando, confrontadas com acusações e provas dizem não
saber de nada. A conversão passa pelo bolso, pois exige um uso dos bens segundo
o plano de Deus, fundamentado na partilha e na comunhão. Chamem-se Mateus ou
Zaqueu, ou quem sabe estejam no templo orando ao lado de um fariseu, é possível
e desejável que os homens e mulheres, todos nós, mudemos o modo de usar os bens
da terra!
Outro campo delicado é o da afetividade e da sexualidade e a
degradação do uso de tais realidades, sob o título de prostituição. O corpo
continua a ser vendido, não só nas zonas de prostituição de nossas cidades. Há
outras formas de negociá-lo! Até se enfeita mais este comércio, justificando-o
com a falsa liberdade de expor a intimidade das pessoas. Entretanto, o
Evangelho de todos os tempos dará nome de Mulher adúltera, ou Samaritana,
Prostituta ou outros qualificativos e profissões, a muitas pessoas que creem em
Jesus Salvador e a Ele se convertem, mesmo depois de uma vida de miséria e
sofrimento.
Com os publicanos e as prostitutas, amplie-se o horizonte
para se sentirem envolvidos no chamado à conversão todos os homens e mulheres
de nosso tempo, cada um de nós em primeiro lugar, seja qual for o nosso
currículo! Encontram-se abertas as portas e as inscrições! Para entrar no Reino
de Deus, as condições são o reconhecimento sincero da condição de pecadores, a
coragem do arrependimento, a força para recomeçar quantas vezes for necessário,
a sinceridade do olhar que se encontra com a misericórdia de Deus. Vale ainda
olhar ao nosso redor e fazer festa com aqueles muitos que, também pecadores,
são nossos companheiros, irmãos e irmãs que peregrinam na estrada da conversão,
sem julgá-los ou pretender excluí-los.
É tempo de pedir com sinceridade: "Ó Deus, que mostrais
vosso poder, sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a
vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos
os bens que nos reservais".
Texto: Dom Alberto Taveira
Corrêa / Arcebispo de Belém do Pará (PA)
Fonte: CNBB
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