Quem quer agradar não pode ser discípulo de Jesus - Pe. Almir
Com a avalanche de informações que temos hoje em dia, com a
utilização de uma tecnologia altamente avançada e atraente, especialmente se
pensamos na telinha e nas redes sociais, com seus aspectos extremamente
positivos, mas também com seus limites, vamos encontrando cada vez mais
desafios e dificuldades para que os valores evangélicos possam se impor, para
que um projeto que dá sentido à vida seja internalizado pelas pessoas e no
tecido social.
A sociedade é plural e aparecem muitos critérios,
referências que formam ou “de” formam a opinião das pessoas, que confundem a
cabeça das pessoas, mesmo aquelas que se sentem mais religiosas, que têm
práticas religiosas intensas. Tudo isso, sem dúvidas, é o resultado de um
período longo de cristandade que não formou os cristãos para o seguimento, para
o discipulado. Parece que falta convicção de que o Evangelho é viável e acabou
se tornando uma referência entre outras no mundo atual.
Desta forma, vai se consolidando por este caminho um tipo de
sociedade que, predominantemente banaliza a vida, relativiza valores, se
constrói sem ética, põe o acento no individualismo e por isso minimiza as
relações humanas e enfim, acentua o lucro. É evidente que esta sociedade não é
só isso, porquanto vamos sempre encontrar minorias que mantêm acesas a
contramão desta história.
A Carta aos Gálatas, logo no seu início, nos traz um
ensinamento precioso quando Paulo se admira pelos membros desta comunidade
terem passado para outro evangelho (cf. Gal. 1,6) e ele pergunta: “Tenho eu
buscado a aprovação dos homens ou a de Deus? Acaso procuro agradar aos homens?
Se ainda quisesse agradar aos homens, não seria discípulo de Cristo” (Gal.
1,10).
Vamos encontrar também na Carta aos Hebreus (2,1), uma
citação esplêndida: falando para cristãos que perderam o entusiasmo inicial
pela proposta de Jesus Cristo e sentiam atração pela cultura grega, Paulo diz:
“Devemos levar mais a sério a Palavra que recebemos, se não quisermos perder o
rumo da vida”.
É evidente que não queremos aqui acentuar uma leitura
científica dos textos citados, mas é “importante fazer uma aproximação do texto
analisado de forma mais existencial e meditada, fazendo-o falar, na medida em
que recupera sua função de luz para a vida da comunidade”.
O texto de Gálatas aponta para a dimensão profética; nela se
destacam o anúncio, o querigma, de uma proposta de vida, mas que requer também
dos fiéis uma postura de determinação, não aceitando nada que contrarie o Reino
de Deus. O cristão não pode ser morno nem ficar indiferente diante do confronto
entre a vida e a Revelação, diante do sofrimento e da vida machucada de tanta
gente.
O outro texto, Carta aos hebreus, escrito num período em que
os cristãos viviam em ambiente hostil, expostos ao desalento e ao desânimo, é
um apelo à fidelidade e perseverança na fé, apontando para o equilíbrio da
vida, quando a Palavra de Deus é levada a sério, Ela não é enfeite; aliás, o
papa Francisco no Angelus do dia 18 de agosto do corrente ano, quando fazia o
comentário do Evangelho daquele domingo, Lc. 12,51: “Vocês pensam que eu vim
trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão”.
O papa pergunta e responde – o que significa isto? Significa que a fé não é uma
coisa decorativa, ornamental; viver a fé não é decorar a vida com um pouco de
religião, como se fosse uma torta e a decora com uma nata (um chantilly). Não,
a fé não é isto. A fé comporta escolher Deus como critério-base da vida.
Interpretando as palavras do papa Francisco e do que estamos
refletindo até aqui, nós podemos, no campo da religiosidade, encher a nossa
vida com muitos penduricalhos, e, aliás, hoje encontramos esta situação de
forma escancarada, com muitas práticas religiosas que pode nos emocionar
bastante, mas distante das práticas cristãs, do seguimento de Jesus Cristo, de
encarar seu estilo de vida. E é neste sentido que estamos sendo bombardeados
nos últimos documentos pastorais da Igreja para encararmos as urgentes
mudanças, inclusive estruturais, que possam nos ajudar a ser uma Igreja
servidora, com cristãos comprometidos e que levem a sério a Palavra de Deus.
Finalizo com uma frase que nos motiva para uma conversão
diária, para uma espiritualidade do cotidiano: diga-me como é um dia seu e eu
vou lhe dizer se vale a pena você continuar acreditando naquilo que você diz
acreditar.
Texto: Pe. Almir Magalhães
Diretor e professor da Faculdade Católica de Fortaleza
Fonte: Arquidiocese de Fortaleza
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