O Reino dos Céus é como a
história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a
sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os
mandou para a vinha.
Às nove horas da manhã, o patrão
saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: 'Ide
também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. E eles foram.
O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três da tarde, e fez a mesma coisa.
Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na
praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' Eles
responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós
também para a minha vinha'.
Quando chegou a tarde, o patrão
disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos,
começando pelos últimos até os primeiros!' Vieram os que tinham sido
contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida
vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais.
Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. Ao receberem o
pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 'Estes últimos trabalharam
uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia
inteiro'.
Então o patrão disse a um deles:
'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o
que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último
o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com
aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' Assim, os
últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.
REFLEXÃO: Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)
A parábola do Evangelho do vigésimo quinto domingo do Tempo
Comum causa surpresa nos que leem a Bíblia pela primeira vez. Não entendem como
Jesus pode colocar como exemplo de comportamento a injustiça clara praticada
pelo proprietário da vinha. É uma norma aceita em nossos dias que o salário
deva corresponder ao trabalho realizado. Mas é que a parábola não fala disso,
mas de Deus e do seu modo de ser. Então, Deus é injusto? Não paga a cada um de
acordo com os seus trabalhos?
As palavras finais da parábola nos permitem entender o
sentido de toda a narrativa. São as que o dono da vinha dirige aos
trabalhadores que protestam por terem recebido menos do que o esperado: “Estás
com inveja porque eu sou bom? “De alguma forma são palavras que Deus dirige a
cada um de nós. É uma frase que vai desde a imensidão do ser de Deus até a
pequenez de nosso ser criaturas. Denuncia a nossa ânsia de manipular Deus, de
querer que Ele atue e seja como nós pensamos que deva agir e ser. Quantas vezes
na história não fizemos Deus abençoar guerras e vinganças?
Esta parábola insinua que não temos muita ideia de como Deus
é. O pouco que sabemos dele é graças ao que Jesus nos revelou. E o que Jesus
nos diz é que é um Pai, ou melhor, um papai – isso é o que significa Abá. Deus
nos quer bem e olha sempre com olhos de carinho e misericórdia. Mas, além
disso, sabemos muito pouco ou nada. Como diz a primeira leitura, “Estão meus
caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos
pensamentos, quanto está o céu acima da terra”.
Não há forma de podermos entender a Deus, introduzi-lo em
nossa mente e expressá-lo em nossas categorias e formas de falar. Deus se pré
nos surpreenderá com a intimidade de seu amor. Por isso, Jesus não encontrou
melhor maneira de falar dele que empregar essas histórias. Dessa forma, por
comparação. Poderíamos vislumbrar um pouco o que é Deus, o amor que nos tem,
sua capacidade de acolhida e sua vontade de nos dar a vida plena. Por isso,
Paulo que havia aberto totalmente seu coração a Deus, pode dizer: “Para mim, o
viver é Cristo e o morrer é lucro.” Melhor é que não tentemos manipular Deus e
que simplesmente o aceitemos como Ele se revelou em Jesus.
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