São Leão Magno e a fé em Jesus Cristo verdadeiro Deus e
verdadeiro homem - Pe. Raniero Cantalamessa
Existem vários caminhos, ou métodos, para aproximar-se à
pessoa de Jesus. Pode-se, por exemplo, partir diretamente da Bíblia e, também
neste caso, é possível seguir várias vias: a via tipológica, seguida na mais
antiga catequese da Igreja, que explica Jesus à luz das profecias e das figuras
do Antigo Testamento; a via histórica, que reconstrói o desenvolvimento da fé
em Cristo a partir das várias tradições, autores e títulos cristológicos, ou
dos diversos ambientes culturais do Novo Testamento. Pode-se, pelo contrário,
partir das perguntas e dos problemas do homem de hoje, ou até mesmo da própria
experiência de Cristo, e, de tudo isso, chegar à Bíblia. Todos esses são
caminhos amplamente explorados.
A Tradição da Igreja elaborou, bem rápido, uma via de acesso
ao mistério de Cristo, um modo seu de recolher e organizar os dados bíblicos
relativos a ele, e esta via se chama o dogma cristológico, a via dogmática. Por
dogma cristológico compreendo as verdades fundamentais sobre Cristo, definidos
nos primeiros concílios ecumênicos, especialmente o de Calcedônia, que, em
substância, se resumem nesses três pilares: Jesus Cristo é verdadeiro homem, é
verdadeiro Deus, é uma só pessoa.
São Leão Magno é o Padre que eu escolhi para introduzir-nos
nas profundidades deste mistério. Por um motivo bem específico. Na teologia
latina estava pronta por dois séculos e meio a fórmula da fé em Cristo que se
tornara o dogma de Calcedônia. Tertuliano tinha escrito: “Vemos duas naturezas,
não confusas, mas unidas em uma pessoa, Jesus Cristo, Deus e homem[1]”. Depois
de muita pesquisa, os autores gregos chegam, por conta própria, a uma
formulação idêntica em substância; mas não porque eles tenham se atrasado ou
perdido tempo, e sim porque só agora era possível dar àquela fórmula o seu verdadeiro
significado, tendo eles evidenciado, enquanto isso, todas as implicações e
resolvido as dificuldades.
O Papa São Leão Magno é aquele que gerenciou o momento em
que as duas correntes do rio – aquela latina e aquela grega – se uniram e com a
sua autoridade de bispo de Roma favoreceu o acolhimento universal. Ele não se
contenta em simplesmente transmitir a fórmula herdada por Tertuliano e retomada
por Agostinho, mas a adapta aos problemas que apareceram nesse ínterim, entre o
concílio de Éfeso do 431 e aquele de Calcedônia do 451. Eis, em grandes linhas,
o seu pensamento cristológico, como foi exposto no famoso Tomus ad
Flavianum[2].
Primeiro ponto: a pessoa do Deus-homem é idêntica à do Verbo
eterno: “Aquele que se fez homem, sob a forma de servo, é o mesmo que na forma
de Deus criou o homem”. Segundo ponto: a natureza divina e a humana coexistem
nesta única pessoa que é Cristo, sem mistura ou confusão, mas cada uma mantendo
suas propriedades naturais (salva proprietate utriusque naturae). Ele começa a
ser o que não era, sem cessar de ser o que era[3]. A obra da redenção exigia
que “o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo,
tivesse que ser capaz de morrer em relação à natureza humana e não morrer com
respeito à natureza divina”. Terceiro ponto: A unidade da pessoa justifica o
uso da comunicação dos idiomas, pela qual podemos afirmar que o Filho de Deus
foi crucificado e enterrado, e também que o Filho do homem veio do céu.
Foi uma tentativa, em grande parte bem sucedida, de
finalmente encontrar um acordo entre as duas grandes “escolas” de teologia
grega, a de Alexandria e a de Antioquia, evitando os respectivos erros que eram
o monofisismo e o nestorianismo. Os antioquenos tinham o reconhecimento, para
eles vitais, das duas naturezas de Cristo, e portanto, da plena humanidade de
Cristo; os alexandrinos, apesar de algumas reservas e resistências, podiam
encontrar na formulação de Leão o reconhecimento da identidade da pessoa do
Verbo encarnado e aquela do Verbo eterno, que estava nos seus corações por
acima de tudo.
Basta recordar o cerne da definição de Calcedônia para
dar-se conta do quanto esteja presente nela o pensamento do Papa Leão:
“Ensinamos por unanimidade que deve-se reconhecer o único e
mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e sempre o mesmo
perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem [...], gerado antes
dos séculos pelo Pai segundo a divindade e nos últimos tempos, por nós homens e
para a nossa salvação, gerado por Maria Virgem segundo a humanidade;
subsistente nas duas naturezas de modo inconfuso, imutável, indivisível,
inseparável, não sendo de forma alguma suprimida a diferença das naturezas por
causa da união, pelo contrário, permanecendo preservada a propriedade tanto de
uma quanto da outra natureza, elas combinam para formar uma só pessoa e
hipóstase[4]“.
Poderia parecer uma fórmula tecnicamente perfeita, mas árida
e abstrata, porém, nela se baseia toda a doutrina cristã da salvação. Só se
Cristo é homem como nós, o que ele faz, nos representa e nos pertence, e
somente se ele também é Deus, aquilo que faz tem um valor infinito e universal,
a tal ponto que, como se canta no Adoro te devote, “uma única gota de sangue
derramado salva o mundo todo do pecado” (“Cuius una stilla salvum facere totum
mundum qui ab omni scelere”)
Sobre este ponto, oriente e ocidente, são unânimes. Esta era
a situação da humanidade antes de Cristo, escrevem, com poucas diferenças entre
eles, santo Anselmo entre os latinos e o Cabasilas entre os ortodoxos. De um
lado estava o homem que tinha contraído a dívida pecando e que tinha que lutar
contra satanás para livrar-se, mas não podia fazê-lo, sendo a dívida infinita e
sendo ele escravo daquele que deveria ter vencido; por outro lado está Deus que
podia expiar o pecado e vencer o demônio, mas não deveria fazê-lo, não sendo
ele o devedor. Era preciso que se encontrassem unidos na mesma pessoa aquele
que devia lutar e aquele que podia vencer, e é aquilo que aconteceu com Jesus,
“verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em uma pessoa[5]”.
2. Jesus da história
e o Cristo do dogma novamente unidos
Estas tranquilas certezas sobre Cristo, nos últimos dois
séculos, foram atingidas por um ciclone crítico que tendia a tirar-lhes toda a
consistência e a qualificá-las como puras invenções dos teólogos. A partir de
Strauss, tornou-se uma espécie de grito de guerra entre os estudiosos do Novo
Testamento: libertar a figura de Cristo dos grilhões do dogma, para reencontrar
o Jesus histórico, o único real. “A ilusão de que Jesus possa ter sido homem no
sentido pleno e que como única pessoa seja superior à toda a humanidade é a
cadeia que ainda fecha a porta da teologia cristã ao mar aberto da ciência
racional[6]”. E eis a conclusão à qual o estudioso chega: “A ideia do Cristo do
dogma por um lado e o Jesus de Nazaré da história por outro estão separados
para sempre”.
Declara-se sem hesitação o pressuposto racionalista desta
tese. O Cristo do dogma não satisfaz as exigências da ciência racional. O
ataque continuou, com soluções alternativas, quase até os nossos dias.
Tornou-se ele mesmo, a seu modo, um dogma: para conhecer o verdadeiro Jesus da
história é preciso prescindir da fé nele posterior à Páscoa. Neste clima
proliferaram reconstruções fantasiosas da figura de Jesus a benefício do
espetáculo, algumas com pretensões de historicidade, mas que na verdade se
baseavam em hipóteses de hipóteses, todas respondendo a gostos ou
reivindicações do momento.
Mas agora, eu acho, chegamos ao fim da parábola. É hora de
tomar nota da mudança que aconteceu neste setor, a fim de sair de uma certa
atitude defensiva e de vergonha que tem caracterizado os estudiosos crentes nos
últimos anos, e ainda mais para fazer chegar uma mensagem a todos aqueles que
nestes anos divulgaram profusamente imagens de Jesus ditadas por aquele
anti-dogma. E a mensagem é que não é possível mais escrever na boa-fé
“Investigações sobre Jesus” que fingem ser “históricas”, mas prescindem, ou
melhor, excluem desde o início, a fé nele.
Quem personaliza de modo mais claro a mudança em ato é um
dos maiores estudiosos vivos do NT, o inglês James D.G. Dunn. Ele resumiu em um
pequeno livro, intitulado “Mudar perspectivas sobre Jesus”, os resultados da
sua monumental pesquisa sobre as origens do cristianismo[7]. O autor pôs a
descoberto as raízes dos dois pressupostos em que se baseiam a contraposição
entre Jesus histórico e o Cristo da fé: primeiro, que para conhecer o Jesus da
história é necessário prescindir da fé pós-pascal; segundo, que para conhecer o
que realmente disse e fez o Jesus histórico, é preciso libertar a tradição das
camadas e das adições posteriores e voltar para a camada original, ou à
primeira “redação”, de uma determinada perícope evangélica.
Contra o primeiro pressuposto, Dunn demonstra que a fé
começou antes da Páscoa; se alguns o seguiram e se tornaram seus discípulos é
porque tinham acreditado nele. Trata-se de uma fé ainda imperfeita, mas de fé.
Nesta fé, o evento pascal marcará certamente um salto de qualidade, mas saltos
de qualidade, embora menos importantes, já tinham acontecido antes da Páscoa,
em momentos particulares, como a transfiguração, certos milagres sensacionais,
o diálogo de Cesaréia de Filipe. A Páscoa não é um início absoluto.
Contra o outro assunto, Dunn demonstra como, embora
admitindo que as tradições evangélicas circularam por um certo tempo de forma
oral, os estudiosos aplicavam sempre a tal tradição o modelo literário, como se
faz hoje quando se quer voltar, de edição em edição, ao texto original de uma
obra. Se levarmos em conta as leis que regularizam – até no presente, em certas
culturas -, a transmissão oral das tradições de uma comunidade, veremos que não
há necessidade de enxugar um dito evangélico, em busca de um hipotético núcleo
originário, uma operação que abriu as portas a todo tipo de manipulação dos
textos evangélicos, acabando por repetir aquilo que acontece quando se descasca
uma cebola em busca do seu núcleo sólido que não existe. Algumas destas
conclusões são aquelas que os estudiosos católicos desde sempre sustentaram[8],
mas Dunn tem o mérito de tê-las defendido com argumentos dificilmente
refutáveis a partir da mesma pesquisa histórico-crítica e com as suas próprias
armas.
O rabino americano J. Neusner, com o qual Bento XVI estabelece
um diálogo em seu primeiro livro sobre Jesus de Nazaré, dá por suposto este
resultado. Partindo de um ponto de vista autônomo e por assim dizer neutro, ele
faz notar como é vã a tentativa de separar o Jesus histórico do Cristo da fé
pós-pascal. O Jesus histórico, o dos Evangelhos, por exemplo do discurso da
montanha, é já um Jesus que exige a fé na sua pessoa como alguém que pode
corrigir Moisés, que é senhor do sábado, pelo qual também pode-se fazer uma
exceção ao quarto mandamento; em suma como alguém que se coloca em pé de
igualdade com Deus. É próprio por isso, diz o rabino, que embora fascinado pela
figura de Jesus, ele não poderá mais ser um dos seus discípulos.
O estudo sobre o NT termina aqui; chega a provar a
continuidade entre o Jesus da história e o Cristo do querigma, não vai mais
longe. Resta provar a continuidade entre o Cristo do querigma e o do dogma da
Igreja. A fórmula de Leão Magno e de Calcedônia marca um desenvolvimento
coerente da fé do Novo Testamento, ou representa, pelo contrário, uma ruptura
com relação a ela? Este foi o meu principal interesse nos anos em que eu me
ocupava de História das origens do cristianismo e a conclusão a que cheguei não
difere daquela do Cardeal Newman, em seu famoso ensaio “Sobre o desenvolvimento
da doutrina cristã[9]“. Houve certamente a mudança de uma cristologia funcional
(o que Cristo “faz”) a uma cristologia ontológica (o que Cristo “é”), mas não
se trata de uma ruptura porque o mesmo processo se dá já no interior do
querigma, por exemplo, na passagem da cristologia de Paulo àquela de João, e em
Paulo mesmo, na passagem das suas primeiras cartas àquelas da prisão,
Filipenses e Colossenses.
3. Além da fórmula
Desta vez o próprio argumento exigia fixar-se um pouco mais
na parte doutrinal do tema. A pessoa de Cristo é o fundamento de todo o
cristianismo. “Se a trombeta emite um som incerto, quem se preparará para a
batalha?”, dizia São Paulo (1 Cor 14, 8): se não tem ideia clara sobre quem é
Jesus Cristo, que força terá a nossa evangelização? Nos resta, no entanto,
fazer agora uma aplicação prática para a vida pessoal e a fé atual da Igreja,
que é o objetivo constante da nossa revisão dos Padres.
Quatro séculos e meio de formidável trabalho teológico deram
à Igreja a fórmula: “Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Jesus
Cristo é uma só pessoa”. Mais sinteticamente ainda: ele é “uma pessoa em duas
naturezas”. A esta fórmula se aplica perfeitamente o dito de Kiekegaard: “A
terminologia dogmática da Igreja primitiva é como um castelo encantado, onde
descansam em um sono profundo os mais graciosos príncipes e princesas. Basta
somente acordá-los, para que se coloquem de pé em toda a sua glória[10]”. A
nossa tarefa é, portanto, a de despertar e de dar sempre nova vida aos dogmas.
A investigação sobre os Evangelhos – mesmo aquela que
lembramos agora de Dunn – nos mostra que a história não nos pode levar ao
“Jesus em si”, ao Cristo como é na realidade. O que alcançamos nos evangelhos é
sempre, em todas as fases, um Jesus “lembrado”, mediado pela memória que dele
conservaram os discípulos, embora se uma memória crente. É como a ressurreição.
“Alguns dos nossos – dizem os dois discípulos de Emaús – foram ao túmulo e
encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não o viram” (Lc
24, 24). A história pode constatar que as coisas, com relação a Jesus de
Nazaré, estão como disseram os discípulos nos evangelhos, mas ele não o vê.
O mesmo acontece com o dogma. Ele pode levar-nos a um Jesus
“definitivo”, “formulado”, mas Tomás de Aquino nos ensina que “a fé não termina
com os enunciados (enuntiabile), mas na realidade (res). Entre a fórmula de
Calcedônia e o Jesus real existe a mesma diferença que há entre a fórmula
química H2O e a água que bebemos ou na qual nadamos. Ninguém pode dizer que a fórmula
H2O é inútil ou que não descreve perfeitamente a realidade; somente não é a
realidade! Quem nos poderá levar ao Jesus “real” que está além da história e
por trás da definição?
E eis que nos deparamos com a grande notícia reconfortante.
Existe a possibilidade de um conhecimento “imediato” de Cristo: é aquele que
nos dá o Espírito Santo enviado por ele mesmo. Ele é a única “mediação
não-mediata” entre nós e Jesus, no sentido que não age como um véu, não
constitui um diafragma ou um trâmite, sendo ele o Espírito de Jesus, o seu
“alter ego”, da sua mesma natureza. Santo Irineu chega a dizer que “o Espírito
Santo é a nossa mesma comunhão com Cristo[11]”. E nisso, aquela do Espírito é
diferente de qualquer outra mediação entre nós e o Ressuscitado, seja eclesial
que sacramental.
Mas é a Escritura mesma que nos fala deste papel do Espírito
Santo com o propósito do conhecimento do verdadeiro Jesus. A vinda do Espírito
Santo em Pentecostes se traduz em uma repentina iluminação de todo o trabalho e
a pessoa de Cristo. Pedro conclui o seu discurso com aquela espécie de
definição “urbi et orbi” do senhorio de Cristo: “Saiba, portanto, com certeza
toda a casa de Israel que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele Jesus que vós
crucificastes” (At 2, 36).
São Paulo afirma que Jesus Cristo é revelado “Filho de Deus
com poder pelo Espírito de santidade” (Rm 1, 4), isto é, por obra do Espírito
Santo. Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, a não ser por uma iluminação
interior do Espírito Santo (cf. 1 Cor 12, 3). O Apóstolo atribui ao Espírito
Santo “a compreensão do mistério de Cristo”, que foi dada a ele, como a todos
os santos apóstolos e profetas (cf. Ef 3, 4-5). Só se forem “fortalecidos pelo
Espírito”, – continua o Apóstolo – os crentes poderão “compreender a largura e
o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo que excede
todo conhecimento” (Ef 3, 16-19).
No Evangelho de João, o próprio Jesus anuncia esta obra do
Paráclito com relação a ele. Ele tomará do que é seu e o anunciará aos
discípulos; recordar-lhes-á tudo o que ele disse; os conduzirá à toda verdade
sobre a sua relação com o Pai; lhes dará testemunho. Exatamente isso será, de
agora em diante, o critério para reconhecer se se trata do verdadeiro Espírito
de Deus e não de um outro espírito: se leva a reconhecer Jesus vindo na carne
(cf. 1 Jo 4, 2-3).
4. Jesus de Nazaré,
uma “pessoa”
Com a ajuda do Espírito Santo, façamos então uma pequena
tentativa de “acordar” o dogma. Do triângulo dogmático de Leão Magno e de
Calcedônia – “verdadeiro Deus”, “verdadeiro homem”, “uma pessoa” – nos
limitamos a tomar em consideração somente o último elemento: Cristo “uma
pessoa”. As definições dogmáticas são “estruturas abertas”, capazes de acomodar
novos significados, o que é possível graças ao progresso do pensamento humano.
Na sua etapa mais antiga, pessoa (do latim personare, ressoar) indicava a
máscara que o ator precisava para fazer ressoar a sua voz no teatro; disso
passou a indicar rosto, portanto, indivíduo, até chegar ao seu significado mais
elevado de “ser individual de natureza racional” (Boécio).
No uso moderno, o conceito se enriqueceu de um significado
mais subjetivo e relacional, favorecido sem dúvida pelo uso trinitário de
pessoa como “relação subsistente”. Indica, portanto, o ser humano em quanto
capaz de relação, de estar como um eu diante de um tu. Nisso a fórmula latina
“uma pessoa” revelou-se mais fecunda do que aquela respectiva grega de “uma
hispóstase”. Hipóstase se pode dizer de cada objeto particular existente;
pessoa, somente do ser humano e, por analogia, do ser divino. Nós falamos hoje
(e também os gregos falam) de “dignidade da pessoa”, não de dignidade da
hipóstase.
Aplicamos tudo isso ao nosso relacionamento com Cristo.
Dizer que Jesus é “uma pessoa” significa também dizer que ressuscitou, que
vive, que está diante de mim, que posso tratar-lhe por tu como ele me trata por
tu. É necessário passar constantemente, no nosso coração e na nossa mente, do
Jesus personagem ao Jesus pessoa. A personagem é alguém de quem se pode falar e
escrever o que quiser, mas a quem e com quem, no geral, não se pode falar.
Jesus, infelizmente, para a maioria dos crentes é ainda um personagem, alguém
de quem se discute, se escreve muito, uma memória do passado, um conjunto de
doutrinas, de dogmas ou de heresias. É um ente, mais do que um existente.
O filósofo Sartre, em uma página famosa, descreveu a emoção
metafísica que produz a súbita descoberta da existência das coisas e pelo menos
nisto podemos dar-lhe crédito:
“Eu estava no Jardim Público. A raiz da castanheira entrava
na terra, exatamente sob o meu banco. Eu não me lembrava que era uma raiz. As
palavras se desvaneceram e, com elas, a significação das coisas, a maneira de
empregá-las, as frágeis referências que os homens tinham traçado na sua superfície.
[ ...] E depois tive aquela iluminação. Fiquei sem respiração. [...] geralmente
a existência esconde-se. Está presente à nossa volta; não se podem dizer duas
palavras sem falar dela, e afinal não lhe tocamos [...] E depois sucedeu
aquilo: de repente, ali estava, ali estava, era claro como a água: a existência
dera-se subitamente a conhecer[12]”.
Para ir além das ideias e palavras de Jesus e entrar em
contato com ele, pessoa que vive, é necessário passar por uma experiência desse
tipo. Alguns exegetas interpretam o nome divino “Aquele que é”, no sentido de
“aquele que está”, que é presente, disponível, agora, aqui[13]. Esta definição
aplica-se perfeitamente também ao Jesus ressuscitado.
É possível ter Jesus como amigo, porque, depois de ter
ressuscitado, ele está vivo, está ao meu lado, posso tratá-lo como um ser vivo
a um ser vivo, um presente a um presente. Não com o corpo e nem sequer somente
com a fantasia, mas “no Espírito” que é infinitamente mais íntimo e real de
ambos. São Paulo nos assegura que é possível fazer tudo “com Jesus”: quer
comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer outra coisa (cf. 1 Cor 10, 31; Col
3,17).
Infelizmente, raramente pensamos em Jesus como um amigo e um
confidente. No subconsciente domina a imagem dele ressuscitado, ascendido ao
céu, distante em sua transcendência divina, que retornará um dia, no fim dos
tempos. Esquecemos que sendo, como diz o dogma, “verdadeiro homem”, melhor, a
mesma perfeição humana, ele possui no mais alto grau o sentimento da amizade
que é uma das qualidades mais nobres do ser humano. É Jesus que deseja um tal
relacionamento conosco. No seu discurso de despedida, dando plena vazão a seus
sentimentos , ele diz: ” Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que
o seu senhor faz; mas vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer todas as
coisas que ouvi do meu Pai” (Jo 15 ,15).
Já vi esse tipo de relacionamento com Jesus, não tanto nos
santos, onde prevalece o relacionamento com o Mestre, com o Pastor, com o
Salvador, o Esposo…, mas com os hebreus que, de modo semelhante a Saulo, chegam
hoje a aceitar o Messias. O nome de Jesus, de repente, muda de uma obscura
ameaça, ao mais doce e amado dos nomes. Um amigo. É como se a ausência de dois
mil anos de discussões sobre Cristo jogasse a favor deles. O deles não é nunca
um Jesus “ideológico”, mas uma pessoa de carne e sangue. Do sangue deles!
Emociona ler os testemunhos de alguns deles. Todas as contradições se resolvem
em um instante, todas as escuridões se iluminam. É como ver a leitura
espiritual do Antigo Testamento se realizar totalmente e rapidamente sob os
próprios olhos. São Paulo o compara à queda de um véu dos olhos (cf. 2 Cor
3,16).
Durante sua vida terrena, embora amando a todos sem
distinção, somente com alguns – com Lázaro e as irmãs e mais ainda com João, o
“discípulo que ele amava” – Jesus tem um relacionamento de verdadeira amizade.
Agora, porém, que ressuscitou e não está mais sujeito aos limites da carne, ele
oferece a todo homem e a toda mulher a possibilidade de tê-lo como amigo, no
sentido mais pleno da palavra. Que o Espírito Santo, o amigo do esposo, nos
ajude a aceitar com alegria e maravilha esta possibilidade que preenche a vida.
[Tradução Thácio Siqueira/
ZENIT]
[1] Tertuliano, Adversus
Praxean, 27, 11 (CC 2, p.1199)
[2] Leão Magno, Carta 28 (PL
54, 755 s.).
[3] Leão Magno, Sermo 27
(26),1 (PL 54, 749).
[4] Denzinger, Enchiridion
Symbolorum, 301-302.
[5] N. Cabasilas, Vita in
Cristo, I, 5 (PG 150, 313); Cf Anselmo, Cur Deus homo?, II, 18.20; Tomas de
Aquino, Summa theologiae, III, q. 46, art. 1, ad 3.
[6] D.F. Strauss, Der Christus des Glaubens und der Jesus der
Geschichte, 1865.
[7] J.D.G. Dunn, A New Perspective on Jesus. What the Quest for the
Historical Jesus Missed, Grands Rapids, Michigan 2005 (Trad. ital. Cambiare prospettiva su Gesù, Paideia, Brescia 2011).
[8] Dunn considera muito o
estudo do exegeta católico alemão H. Schürmann sobre a origem pré-pascal de
certos ditos de Jesus. ob.cit. p.28
[9] Cf. o meu estudo, Dal
kerygma al dogma. Studi sulla cristologia dei Padri, Vita e Pensiero, Milano
2006, pp. 11-51.
[10] S. Kierkegaard, Diario,
II,A 110 (ed. a cura di C. Fabro, Brescia 1962, nr. 196).
[11] S. Ireneo, Contra as
heresias, III, 24, 1
[12] J.-P. Sartre, La Nausea,
Milano 1984, p. 193 s.
[13] Cf. G. Von Rad, Teologia
dell’Antico Testamento, I, Paideia, Brescia 1972, p. 212
Fonte: www.cantalamessa.org/?p=2328&lang=pt

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