Quando o ser humano se coloca no lugar de Deus e o rejeita,
estraga o convívio com o semelhante e com a natureza. Sua existência entra no
vazio e num beco sem saída. Procura reverter essa situação, buscando, na
religião, uma ponte de religação com o Criador. Sozinho, no entanto, não é
capaz de ligar sua natureza limitada com o ilimitado divino. Nessa condição
Moisés clamou: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha
conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos
pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (Êxodo 34,9).
Deus respeita a liberdade humana e aceita sua decisão, em
relação à proposta que Ele faz ao ser humano, de viver como sua imagem e
semelhança, ou seja, cuidando da terra como Ele o faz em relação ao todo o
universo. Em sintonia com o Criador e harmonia com a natureza e seu semelhante,
o humano na história se tornaria um benfeitor da criação. Mas a
autossuficiência humana tem feito o desastre na terra. A concentração dos
recursos naturais em minorias, o domínio e o esmagamento dos mais fortes em
relação aos outros, o desrespeito aos valores naturais, à dignidade da vida e
da pessoa humana, a política favorecedora de elites em detrimento do bem comum,
a desvalorização da família, da ética e da moral, têm produzido a idolatria da
ganância de alguns sobre o bem das maiorias injustiçadas. A fome ainda acontece
na face terrestre sobre boa parcela da humanidade.
A miséria em que vivem alguns grita por justiça ao divino! O
clamor: “Caminha conosco, Senhor” se perpetua.
Jesus é a resposta do Pai, que vem à nossa história e coloca
Deus no coração humano para este resgatar o sentido da caminhada no amor.
Aceitando-o, o ser humano percebe que não está sozinho para resolver sua
problemática existencial. É possível refazer os laços da fraternidade e o
equilíbrio entre o ser humano e a natureza. A força humana é potencializada com
o esvaziamento do próprio orgulho e o preenchimento do amor do Criador. Paulo
lembra: “ A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do
Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Coríntios 13,13). As três pessoas
divinas, trabalhando unidas na sua única divindade, também inoculam no ser
humano o grande desejo de comum união para a vida fraterna e de promoção de
cada pessoa no amor vivenciado entre todos. Não haverá mais ganância,
esmagamento de uns sobre os outros, discriminações, exclusões, miséria e
destruição de vidas. Ao contrário, cada ser humano vai ser tratado como
verdadeira imagem e semelhança de Deus. Vai reinar a justiça, o temor de Deus e
o amor ao próximo. Aí o ser humano será salvo, pois, aceitará Deus caminhando
com ele: “Quem nele crê não é condenado” (João 3,18).
Precisamos, para o conserto do estrago humano na caminhada
terrestre, aceitar o senhorio divino, respeitando o papel humano em sintonia
com Ele!
Dom José
Alberto Moura
Arcebispo
de Montes Claros (MG)
Fonte: CNBB
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