No dia de
Pentecostes, Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à
multidão: “Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um
homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que
Deus realizou, por meio dele, entre vós. Tudo isto vós bem o sabeis.
Deus, em seu
desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios,
e vós o matastes, pregando-o numa cruz. Mas Deus ressuscitou a Jesus,
libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o
dominasse. Pois Davi dele diz: ‘Eu via sempre o Senhor
diante de mim, pois está à minha direita para eu não vacilar. Alegrou-se por
isso meu coração e exultou minha língua e até minha carne repousará na
esperança. Porque não deixarás minha alma na região dos mortos nem permitirás
que teu Santo experimente corrupção. Deste-me a conhecer os caminhos da vida, e
a tua presença me encherá de alegria’.
Irmãos, seja-me
permitido dizer com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu
sepulcro está entre nós até hoje. Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara
solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono. É, portanto, a
ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras: ‘Ele não foi
abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção’.
Com efeito, Deus
ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas. E agora,
exaltado pela direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora
prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo” - Palavra do Senhor.
Comentando a Liturgia: A primeira leitura apresenta o
“querigma” apostólico, o anúncio – no discurso de Pedro em Pentecostes – da
ressurreição de Jesus e de sua vitória sobre a morte. É o protótipo da pregação
apostólica. Suprimida a introdução do discurso, por ser a leitura de
Pentecostes (At 2,15-21), a leitura de hoje se inicia com o v. 22, anunciando
que o profeta rejeitado ressuscitou, cumprindo as Escrituras (Sl 16[15],8-10).
Não
se trata de ver aí uma realização “ao pé da letra”, mas de reconhecer nas
Escrituras antigas a maneira de agir de Deus desde sempre, a qual se realiza
num sentido “pleno” em Jesus Cristo. Ou melhor: naquilo que se vê em Jesus,
aparece o sentido profundo e escondido das antigas Escrituras.
O
importante nesse querigma é o anúncio da ressurreição como sinal de que Deus
“homologou” a obra de Jesus e lhe deu razão contra tudo e todos. Isso é
atestado não só por testemunhas humanas, mas também pelo testemunho de Deus
mesmo, na Escritura.
O
Salmo 16[15], por exemplo, originalmente a prece de quem sabe que Deus não o
entregará à morte, encontra em Cristo sua realização plena e inesperada. Esse
salmo é também o salmo responsorial de hoje e terá de ser devidamente
valorizado.
Salmo:
15(16),1-2a.5.7-8.9-10.11
Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto de vós felicidade sem limites!
Guardai-me, ó Deus, porque em vós me
refugio! Digo ao Senhor: "Somente vós sois meu Senhor: nenhum bem eu posso
achar fora de vós!" Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, meu destino
está seguro em vossas mãos!
Eu bendigo o Senhor, que me aconselha, e
até de noite me adverte o coração. Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois
se o tenho a meu lado não vacilo.
Eis por que meu coração está em festa, minha
alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso está tranqüilo; pois não
haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção.
Vós me ensinais vosso caminho para a
vida junto a vós, felicidade sem limites,/ delícia eterna e alegria ao vosso
lado!
Segunda
Leitura: 1Pd. 1,17-21 Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,
cordeiro sem mancha.
Caríssimos, se invocais como Pai aquele que sem
discriminação julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então
respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo. Sabeis que
fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas
perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de
um cordeiro sem mancha nem defeito.
Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e
neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. Por ele é que
alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e
assim, a vossa fé e esperança estão em Deus - Palavra do Senhor.
Comentando a Liturgia: Na segunda leitura, continua a
leitura da 1Pd iniciada no domingo passado. Jesus Cristo é visto como aquele
que nos conduz a Deus. Sua morte nos remiu de um obsoleto modo de viver. Por
meio de Cristo, ou seja, quando reconhecemos e assumimos a validade do seu modo
de viver e de morrer, chegamos a crer verdadeiramente em Deus e conhecemos Deus
como aquele que ressuscita Jesus, aquele que dá razão a Jesus e “endossa” a sua
obra. Isso modifica nossa vida.
Desde
o nosso batismo, chamamos a Deus de Pai; mas ele é também o Santo que nos chama
à santidade (1Pd 1,16; cf. Lv 19,2). O sacrifício de Cristo, Cordeiro pascal,
obriga-nos à santidade. Os últimos versículos desta leitura (v. 19-21)
constituem uma profissão de fé no Cristo, que desde sempre está com Deus: ele
nos fez ver como Deus verdadeiramente é, e por isso podemos acreditar que Deus
nos ama.
Evangelho
segundo Lucas 24,13-35 Reconheceram-no ao partir o pão
Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos
de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de
Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto
conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com
eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. Então
Jesus perguntou: "O que ides conversando pelo caminho?" Eles pararam,
com o rosto triste, e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: "Tu és o único
peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos
dias?"
Ele perguntou: "O que foi?" Os discípulos
responderam: "O que aconteceu com Jesus, o nazareno, que foi um profeta
poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. Nossos
sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o
crucificaram. Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de
tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! É verdade que
algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao
túmulo e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto
anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. Alguns dos nossos foram ao
túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém,
ninguém o viu".
Então Jesus lhes disse: "Como sois sem inteligência e
lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia
sofrer tudo isso para entrar na sua glória?" E, começando por Moisés e
passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da escritura
que falavam a respeito dele.
Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de
conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo:
"Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!" Jesus entrou
para ficar com eles. Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o,
partiu-o e lhes distribuía.
Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram
Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro:
"Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e
nos explicava as escrituras?" Naquela mesma hora, eles se levantaram e
voltaram. para Jerusalém onde encontraram os onze reunidos com os outros. E
estes confirmaram: "Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a
Simão!" Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como
tinham reconhecido Jesus ao partir o pão -
Palavra da Salvação.
Comentando o Evangelho: O
evangelho é preparado pela aclamação, que evoca o ardor dos discípulos ao
escutar a palavra de Deus (cf. Lc 24,32). Trata-se da narrativa dos discípulos
de Emaús (lida também na missa da tarde no domingo da Páscoa). A homilia pode
sublinhar diversos aspectos.
1) “Não era necessário que o Cristo padecesse tudo
isso para entrar na glória?” (Lc 24,26). Cabe parar um momento junto ao termo
“o Cristo”. Não é apenas de Jesus como pessoa que se trata, mas de Jesus
enquanto Cristo, Messias, libertador e salvador enviado e autorizado por Deus.
Não se trata apenas de reconhecer a vontade divina a respeito de um homem
piedoso, mas do modo de proceder de Deus no envio de seu representante, o
“Filho do homem” revestido de sua autoridade (cf. Dn 7,13-14), que deve levar a
termo o caminho do sofrimento e da doação da vida (cf. Lc 9,22.31).
2) Jesus “lhes explicou, em todas as Escrituras, o
que estava escrito a seu respeito” (Lc 24,27). Em continuidade com a primeira
leitura, podemos explicitar o tema do cumprimento das Escrituras. As Escrituras
fazem compreender o teor divino do agir de Jesus. Enquanto os discípulos de
Emaús estavam decepcionados a respeito de Jesus, fica claro agora que, apesar
da aparência contrária, Jesus agiu certo e realizou o projeto de Deus. As
Escrituras testemunham isso. Jesus assumiu e levou a termo a maneira de ver e
de sentir de Deus que, embora de modo escondido, está representada nas antigas
Escrituras. Ele assumiu a linha fundamental da experiência religiosa de Israel
e a levou à perfeição, por assim dizer. Mas só foi possível entender isso
depois de ele ter concluído a sua missão. Só à luz da Páscoa foi possível que
as Escrituras se abrissem para os discípulos (cf. também Jo 20,9; 12,16).
3) Reconheceram-no ao partir o pão (cf. Lc 24,31 e
35). A experiência de Emaús nos faz reconhecer Cristo na celebração do pão
repartido. Na “última ceia”, o repartir o pão fora reinterpretado,
“ressignificado”, pelo próprio Jesus como dom de sua vida pelos seus e pela
multidão (Lc 22,19); e à comunhão do cálice que acompanhava esse gesto, Jesus
lhe dera o sentido de celebração da nova e eterna aliança (Lc 22,20). Assim
puderam reconhecê-lo ao partir do pão. Mas o gesto de Jesus na casa dos
discípulos significava também a rememoração do gesto fundador que fora a Última
Ceia, a primeira ceia da nova aliança. Desde então, esse gesto se renova
constantemente e recebe de cada momento histórico significações novas e atuais.
Que significa “partir o pão” hoje? Não é apenas o gesto eucarístico; é também o
repartir o pão no dia a dia, o pão do fruto do trabalho, da cultura, da
educação, da saúde... Os discípulos de Emaús, decerto, não pensavam num mero
rito “religioso”, mas em solidariedade humana. Ao convidarem Jesus, não
pensaram numa celebração ritual, mas num gesto de solidariedade humana: que o
“peregrino” pudesse restaurar as forças e descansar, sem ter de enfrentar o
perigo de uma caminhada noturna. O repartir o pão de Jesus é situado na
comunhão fraterna da vida cotidiana. Esse é o “aporte” humano que Jesus ressignifica,
chamando à memória o dom de sua vida.
Fique com Deus e sob a
proteção da Sagrada Família
Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
www.catolicoscomjesus.com –
catolicoscomjesus@gmail.com
Crendo e ensinando o que crê e ensina a Santa Igreja Católica

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