“Estive Morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos
séculos" (Apocalipse 1,18)
Alguns Padres da Igreja colocaram numa imagem todo o
mistério da redenção. Imagina, dizem, que aconteceu, no estádio, uma luta
épica. Um herói enfrentou o cruel tirano que escravizava a cidade e, com enorme
esforço e sofrimento, o venceu. Você estava na arquibancada, não lutou, não se
esforçou e nem teve feridas. Mas, se você admira o herói, se se alegra com ele
pela vitória, se tece-lhe uma coroa, se anima e exalta a plateia por ele, se se
ajoelha com alegria diante do vencedor, beija a sua cabeça e aperta a sua mão
direita; em suma, se tanto se exalta por ele, a tal ponto de considerar como
sua a vitória dele, eu lhe digo que você terá com certeza parte no prêmio do
vencedor.
E tem mais: suponha que o vencedor não tenha nenhuma
necessidade do prêmio que conquistou para si, mas que deseje, mais do que
qualquer outra coisa, ver o seu admirador honrado e considere que o prêmio da
sua luta seja a coroação do seu amigo, em tal caso aquele homem não terá talvez
a coroa, mesmo sem ter lutado e sem ter feridas? Claro que vai! (Nicola
Cabasilas, Vita in Christo, I, 9 (PG 150, 517).
Dessa forma, dizem esses Padres, acontece com Cristo e
conosco. Ele, na cruz, derrotou seu antigo adversário. “As nossas espadas –
exclama São João Crisóstomo – não estão sujas de sangue, não estivemos na
arena, não temos lesões, nem sequer vimos a batalha, e eis que temos a vitória.
Sua foi a luta, nossa a coroa. E porque também nós vencemos, imitemos o que os
soldados fazem nesse caso: com vozes de alegria exaltemos a vitória, entoemos
hinos de louvor ao Senhor” (S. João Crisóstomo, De coemeterio et de cruce; PG,
49, 596). Não poderia ser explicado melhor o significado da liturgia que
estamos celebrando.
Mas o que estamos fazendo é, em si, uma imagem, a
representação de uma realidade passada, ou é a própria realidade? Ambas as
coisas! “Nós – dizia Santo Agostinho ao povo – sabemos e acreditamos com fé
certíssima que Cristo morreu só uma vez por nós [...]. Sabeis perfeitamente bem
que tudo isto foi feito apenas uma vez e ainda assim a solenidade
periodicamente o renova [...]. Verdade histórica e solenidade litúrgica não
estão em contradição entre si, como se a segunda fosse falácia e somente a
primeira correspondesse à verdade. Do que a história afirma ter acontecido uma
só vez na realidade, a solenidade renova muitas vezes a celebração nos corações
dos fiéis” (S. Agostinho, Sermone 220; PL 38, 1089).
A liturgia “renova” o evento: quantas discussões, durante
cinco séculos até hoje, sobre o sentido desta palavra, especialmente quando é
aplicada ao sacrifício da cruz e à Missa! Paulo VI usou um verbo que poderia
pavimentar o caminho para uma compreensão ecumênica sobre tal argumento: o
verbo “representar”, compreendido no sentido forte de reapresentar, ou seja
tornar novamente presente e operante o acontecido”( Cf Paolo VI, Mysterium
fidei (AAS 57, 1965, p. 753 ss).
Há uma diferença substancial entre a representação da morte
de Cristo e aquela, por exemplo, da morte de Júlio César na tragédia homônima
de Shakespeare. Ninguém assiste, estando vivo, o aniversário da própria morte;
Cristo sim, porque ressuscitou. Somente Ele pode dizer, como faz no Apocalipse:
“Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (Ap 1,18).
Devemos ter cuidado neste dia, visitando os chamados “sepulcros” ou
participando nas procissões do Cristo morto, de não merecermos a censura que o
Ressuscitado dirigiu às piedosas mulheres na manhã de Páscoa: “Por que
procurais Aquele que vive entre os mortos?” (Lc 24,5).
É uma afirmação ousada, mas verdadeira aquela de certos
autores ortodoxos. “A anamnese, ou seja, o memorial litúrgico, faz o evento
mais verdadeiro do que quando aconteceu historicamente pela primeira vez”. Em
outras palavras, mais real e verdadeiro para nós que o revivemos “segundo o
Espírito”, do que para aqueles que o viveram “segundo a carne”, antes que o
Espírito Santo revelasse à Igreja o pleno significado.
Não estamos apenas comemorando um aniversário, mas um
mistério. É ainda Santo Agostinho que explica a diferença entre as duas coisas.
Na celebração “à maneira de aniversário”, não se pede outra coisa – diz – mais
do que “indicar com uma solenidade religiosa o dia do ano no qual cai a
lembrança do mesmo acontecimento”; na celebração a modo de mistério (“em sacramento”),
“não somente se comemora um acontecimento, mas é feito também de tal forma que
se entenda o seu significado e seja acolhido santamente” (Agostinho, Epistola
55, 1, 2; CSEL 34, 1, p. 170)
Isso muda tudo. Não se trata somente de assistir a uma representação,
mas de “acolher” o significado, de passar de espectador à ator. Cabe a nós
portanto escolher qual parte queremos representar no drama, quem queremos ser:
se Pedro, se Judas, se Pilatos, se a multidão, se o Cireneu, se João, se Maria
… Ninguém pode permanecer neutro; não tomar partido, é tomar um bem preciso:
aquele de Pilatos que lava as mãos, ou da multidão que de longe “permanecia lá,
a olhar ” (Lucas 23, 35).
Se voltando para casa, nesta tarde, alguém nos perguntar:
“De onde vens? Onde estivestes?”, respondamos, portanto, pelo menos em nossos
corações: “No Calvário!”
Mas nada disso acontece automaticamente, só porque
participamos nesta liturgia. Trata-se, dizia Agostinho, de “acolher” o
significado do mistério. Isto acontece com a fé. Não há música, onde não há um
ouvido que a escute, por mais que a orquestra toque forte; não há graça, onde
não há uma fé que a acolha.
Numa homilia de Páscoa do século IV, o bispo pronunciava
estas palavras surpreendentemente modernas e, por assim dizer, existenciais:
“Para cada homem, o princípio da vida é aquele, a partir do qual Cristo foi
imolado por ele. Mas Cristo é imolado por ele quando ele reconhece a graça e se
torna consciente da vida que lhe foi dada por aquela imolação”(Homilia pascal
do ano 387; SCh 36, p. 59 s.)
Isso aconteceu sacramentalmente no Batismo, mas deve sempre
acontecer conscientemente de novo na vida. Devemos, antes de morrer, ter a
coragem de fazermos um golpe de audácia, quase como um golpe de mão:
apropriar-nos da vitória de Cristo. A apropriação indevida! Uma coisa comum
infelizmente na sociedade na qual vivemos, mas com Jesus essa não somente não
está proibida, mas é sumamente recomendada. “Indevida” aqui significa que não
nos é devido, que não nos é merecido, mas nos é dado gratuitamente, pela fé.
Mas andemos com passos firmes; escutemos um doutor da
Igreja. “Eu – escreve São Bernardo – , o que não posso obter por mim mesmo, o
aproprio (literalmente, o usurpo!) com confiança do lado aberto do Senhor,
porque está cheio de misericórdia. Meu mérito, por isso, é a misericórdia de
Deus. Não sou tão pobre de méritos, enquanto ele seja rico de misericórdia. Que
se as misericórdias do Senhor são muitas (Sl 119, 156), eu porém terei muitos
méritos. E o que acontece com a minha justiça? Ó Senhor, me lembrarei somente
da tua justiça. De fato, ela é também a minha, porque tu es para mim justiça de
Deus” (cf. 1 Cor 1, 30) (S. Bernardo de Claraval, Sermoni sul Cantico, 61, 4-5;
PL 183, 1072).
Talvez esta forma de conceber a santidade tenha feito São
Bernardo menos zeloso das boas obras, menos comprometido na aquisição das
virtudes? Talvez negligenciasse mortificar o seu corpo e reduzí-lo a escravidão
(cf. 1 Cor 9, 27), aquele que, antes de todos e mais do que todos, tinha feita
desta apropriação da justiça de Cristo o objetivo da sua vida e da sua pregação
(cf. Fl 3, 7-9)?
Em Roma, como infelizmente em todas as grandes cidades, há
muitos moradores de rua. Existe um nome para eles em todas as línguas:
homeless, clochards, sem-teto: seres humanos que não têm mais do que poucos
trapos que carregam e algum objeto que trazem consigo em sacos plásticos.
Imaginemos que um dia se espalha a notícia: Na rua Condotti (todos sabemos o
que é a rua Condotti em Roma!) há uma boutique luxuosa que, por razões desconhecidas,
de interesse ou de generosidade, convida todos os moradores de rua da Estação
Termini a virem para o seu negócio; lhes convida a tirar os seus trapos
imundos, a tomar um bom banho e depois a escolher o vestido que desejam entre
aqueles exibidos e levá-los, assim, de graça.
Todos dizem entre si: “Isto é um conto de fadas, nunca
acontece”. Verdadeiríssimo, mas o que nunca acontece entre os homens é o que
pode acontecer a cada dia entre os homens e Deus, porque, diante Dele, aqueles
moradores de rua somos nós! É o que acontece conosco depois de uma boa
confissão: tire as suas roupas sujas, os pecados, receba o banho da
misericórdia e levante-se que estás “revestido das vestes da salvação, coberto
com um manto de justiça” (Isaías 61, 10).
O publicano da parábola subiu ao templo para orar; disse
simplesmente, mas do fundo do coração: “Ó Deus, tem misericórdia de mim,
pecador!”, e “voltou para casa justificado” (Lc 18, 14), reconciliado, feito
novo, inocente. O mesmo, se temos a sua fé e o seu arrependimento, se poderá
dizer de nós voltando à casa depois desta liturgia.
Entre os personagens da paixão que podemos nos identificar
percebo que deixei de citar um, que mais do que ninguém, espera quem lhe siga o
exemplo: o bom ladrão.
O bom ladrão faz uma confissão completa dos pecados; diz ao
seu companheiro que insulta Jesus: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma
condenação? Quanto a nós, é de justiça; estamos pagando por nossos atos; mas
ele não fez nenhum mal” (Lc 23, 40 ss.). O bom ladrão se mostra aqui um
excelente teólogo. Só Deus de fato, se sofre, sofre absolutamente como
inocente; qualquer outro ser que sofre deve dizer: “Eu sofro com justiça,”
porque, embora não seja responsável pela ação imputada, nunca está totalmente
sem culpa. Só a dor das crianças inocentes é semelhante àquela de Deus e por
isso é tão misteriosa e tão sagrada.
Quantos crimes atrozes que permanecem, nos últimos tempos,
sem culpados, quantos casos não resolvidos! O bom ladrão faz um apelo aos
responsáveis: façam como eu, venham à luz, confessem a vossa culpa;
experimentareis também vós a alegria que eu senti quando ouvi a palavra de
Jesus: “Hoje estarás comigo no paraíso!” (Lc 23, 43). Quantos réus confessos
podem confirmar que foi assim também para eles: que passaram do inferno ao
paraíso no dia que tiveram a coragem de arrepender-se e confessar a sua culpa.
Eu também conheci alguns. O paraíso prometido é a paz da consciência, a
possibilidade de olhar-se no espelho ou olhar para os próprios filhos sem ter
que desprezar-se.
Não carreguem convosco até o túmulo o vosso segredo;
encontraríeis uma condenação muito mais temível do que aquela humana. O nosso
povo não é cruel com quem errou mas reconhece o mal feito, sinceramente, não
somente por algum interesse. Pelo contrário! Está pronto para ter pena e acompanhar
o arrependido no seu caminho de redenção (que de qualquer forma, torna-se mais
curto). “Deus perdoa muitas coisas, por uma obra boa”, diz Lucia ao Inominável
no “Os Noivos”. Ainda mais, devemos dizer, que ele perdoa muitas coisas por um
ato de arrependimento. Ele prometeu solenemente: “Mesmo que os vossos pecados
sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos
como o carmesim tornar-se-ão como a lã” (Is 1, 18).
Continuemos a fazer o que, como escutamos no início, é a nossa
tarefa neste dia: com vozes de alegria exaltemos a vitória da cruz, entoemos
hinos de louvor ao Senhor. “O Redemptor, sume carmen temet concinentium”( Hino
do Domingo de Ramos e da Missa crismal da Quinta-feira Santa): E vós, ó nosso
Redentor, aceite o canto que elevamos para vós.
Texto: Padre Raniero Cantalamessa
Fonte: www.cantalamessa.org/?p=1654&lang=pt
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Sua opinião é muito importante para nós.