São Bernardo de Claraval: Sermão sobre o conhecimento e a
ignorância
O conhecimento das letras é bom para a instrução, mas o
conhecimento da própria fraqueza é mais útil para a salvação [31]
I
Aqui estou para
cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou,
também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.
Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o
compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.
Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia.
Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de
ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego.
Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é
necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.
Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância,
ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós
próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são
perdição.
Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes,
porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois
nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se
podem ignorar sem problema algum para a salvação.
Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a
carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade
da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?
Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus
pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são
úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos
Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição,
"mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5) ( [32] ). E
agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo
não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos,
entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para
realizar a salvação na terra.
Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens -
como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua
benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos
mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com
palavras eloquentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus:
pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que creem, porquanto
o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).
II
Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito
o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim,
tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm
prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos
simples.
Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como
rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu
sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho
do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como
estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).
Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I
Cor 8, 1) ( [33] ).
E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a
dor" (Ecl 1, 18).
Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o
inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir
qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não
duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação
é aparentada, pela aflição é procurada ( [34] ).
Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede,
recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração
contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus
resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6) ( [35] ). E o
Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi
dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade"
(Rom 12,3).
O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que
convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente
ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve ( [36] ). Ora, ainda que todo
saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e
tremor ( [37] ) a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do
tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais
diretamente à salvação.
Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é
precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes,
qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus
criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los.
Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.
III
Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta
sentença, mas dEle; ou antes, é nossa porque a aprendemos dAquele que é a
Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe
como deveria saber" (ICor 8,2).
Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora
o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de
saber.
Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a
ordem, o amor e o fim devidos?
Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário
para a salvação; segundo o amor ( [38] ), isto é, voltando-nos mais
ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade
ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria
edificação e pela de teu próximo.
Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer:
é uma indigna curiosidade.
Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma
indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber
nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).
Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por
honras: é um indigno tráfico.
Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E
há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.
IV
De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos
não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é
que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111,
10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o
pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).
É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e
não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus
humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o
caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que
não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo
aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma
se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos
costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal
como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores
do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços
e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?
Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação,
toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a
vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites"
(Lc 12,47) ?
E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer
4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos
geminados ( [39] ) que - salvo outra interpretação - apontam para o que
dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de
amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se
interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não
pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que
menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora
sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.
V
Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo:
"O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si
mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.
Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve
ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas
humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que
não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé.
E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais
convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar
a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente,
evitando fugir de si mesmo.
Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade,
encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria
- uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -,
clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl
119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se
conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa
em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada,
fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante
mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para
as virtudes?
Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça
orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação,
trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame
lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua
humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl
41,5).
Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele
é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.
VI
Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura;
logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se
meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está
conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).
Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que
Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e
misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é
próprio dEle perdoar e ter misericórdia sempre.
Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira
salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao
Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me
glorificarás" (Sl 50,15).
Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento
de Deus. Vê-Lo-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu,
desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e,
levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando
nessa imagem.
VII
Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para
a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se
desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso
pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?
(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").
Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de
vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena
continuar falando sobre o óbvio.
Mas, prestai atenção a um outro ponto...
Ou será melhor parar, por causa dos que já estão
pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido:
falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já
está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns
bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília
de oração que tivemos hoje os desculpa.
O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram
também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e
envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante
cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.
Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar,
partamos, suspendendo por clemência o discurso, e dêmos-lhe fim, embora não
tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa
compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor
Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos.
Amém.
Sermão
36 sobre o Cântico dos Cânticos - trad. Jean Lauand
Fone:
hottopos.com/mp4/gazali_mplus4.htm#serm
Fique com Deus e sob a proteção da Sagrada Família
Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
Crendo e ensinando o que crê e ensina a Santa Igreja
Católica
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