Papa Francisco aos membros da comissão teológica
internacional
Amados irmãos e irmãs!
Recebo-vos e saúdo-vos cordialmente no final da vossa Sessão
Plenária. Agradeço ao Presidente, D. Müller, as palavras que me dirigiu, também
em nome de todos vós. Este encontro oferece-me a ocasião para vos agradecer o
trabalho que fizestes no último quinquénio, e para reafirmar a importância do
serviço eclesial dos teólogos para a vida e a missão do Povo de Deus.
Como afirmastes no recente documento «A teologia hoje:
perspectivas, princípios, critérios», a teologia é ciência e sabedoria. É
ciência, e como tal utiliza todos os recursos da razão iluminada da fé para
penetrar na inteligência do mistério de Deus revelado em Jesus Cristo. E é
sobretudo sabedoria: na escola da Virgem Maria, que «guardava todas estas
coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19), o teólogo procura iluminar a
unidade do desígnio de amor de Deus e compromete-se a mostrar como as verdades
da fé formam uma unidade orgânica, harmoniosamente articulada. Além disso,
compete ao teólogo a tarefa de «ouvir atentamente, discernir e interpretar as
várias linguagens do nosso tempo e sabê-las julgar à luz da Palavra de Deus,
para que a verdade revelada seja compreendida cada vez mais profundamente, seja
melhor entendida e possa ser apresentada de forma mais adequada» (Conc. Vat II,
Const. past. Gaudium et spes, 44). Por conseguinte, os teólogos são «pioneiros»
— isto é importante: pioneiros. Em frente! — pioneiros do diálogo da Igreja com
as culturas. Mas o facto de ser pioneiros é importante também porque por vezes
pode-se pensar que fiquem para trás, na caserna... Não, na fronteira! Este
diálogo da Igreja com as culturas é um diálogo crítico e ao mesmo tempo
benévolo, que deve favorecer o acolhimento da Palavra de Deus por parte dos
homens «de todas as nações, raças, povos e línguas» (Ap 7, 9).
Os três temas que atualmente vos ocupam inserem-se nesta
perspectiva. A vossa reflexão sobre as relações entre monoteísmo e violência
confirma que a Revelação de Deus constitui deveras uma Boa Nova para todos os
homens. Deus não é uma ameaça para o homem! A fé no Deus único e três vezes
Santo não é e nunca pode ser geradora de violência e de intolerância. Ao
contrário, o seu carácter altamente racional confere-lhe uma dimensão
universal, capaz de unir os homens de boa vontade. Por outro lado, a Revelação
definitiva de Deus em Jesus Cristo torna impossível qualquer recurso à
violência «em nome de Deus». E foi precisamente pela sua rejeição da violência,
por ter vencido o mal com o bem, com o sangue da sua Cruz, que Jesus
reconciliou os homens com Deus e entre eles.
É esta mesma paz que está no centro da vossa reflexão sobre
a doutrina social da Igreja. Ela tem como finalidade traduzir na realidade da
vida social o amor de Deus pelo homem, que se manifestou em Jesus Cristo. Eis
por que a doutrina social se radica sempre na Palavra de Deus, acolhida,
celebrada e vivida na Igreja. E a Igreja deve viver antes de tudo em si mesma
aquela mensagem social que leva ao mundo. As relações fraternas entre os
crentes, a autoridade como serviço, a partilha com os pobres: todos estes
aspectos, que caracterizam a vida eclesial desde a sua origem, podem e devem
constituir um modelo vivente e atraente para as diversas comunidades humanas,
da família à sociedade civil.
Este testemunho pertence ao Povo de Deus no seu conjunto,
que é um Povo de profetas. Mediante o dom do Espírito Santo, os membros da
Igreja possuem o «sentido da fé». Trata-se de uma espécie de «instinto
espiritual», que permite sentire cum Ecclesia e discernir o que está em
conformidade com a fé apostólica e com o espírito do Evangelho. Certamente, o
sensus fidelium não pode ser confundido com a realidade sociológica de uma
opinião maioritária, sem dúvida. É outra questão. Por conseguinte é importante
— e é tarefa vossa — elaborar os critérios que permitem discernir as expressões
autênticas do sensus fidelium. Por seu lado, o Magistério tem o dever de estar
atento ao que o Espírito diz às Igrejas através das manifestações autênticas do
sensus fidelium. Vêm-me à memória aqueles dois números, 8 e 12, da Lumen gentium,
que precisamente sobre este aspecto são muito fortes. Esta atenção é da máxima
importância para os teólogos. O Papa Bento XVI frisou várias vezes que o
teólogo deve permanecer à escuta da fé vivida dos humildes e dos pequeninos,
aos quais aprouve ao Pai revelar o que escondeu aos sábios e instruídos (cf. Mt
11, 25-26, Homilia na Missa com a Comissão Teológica Internacional, 1 de
Dezembro de 2009).
Por conseguinte, a vossa missão é fascinante e ao mesmo
tempo arriscada. Estes dois aspectos são positivos: o fascínio da vida, porque
a vida é bela; e também o risco, porque assim podemos ir em frente. É
fascinante porque a pesquisa e o ensino da teologia podem tornar-se um
verdadeiro caminho de santidade, como confirmam numerosos Padres e Doutores da
Igreja. Mas é também arriscada, porque comporta tentações: a aridez do coração
— isto é mau, quando o coração fica árido e pensa que pode refletir sobre Deus
com aquela aridez, quantos erros! — o orgulho e até a ambição. São Francisco de
Assis certa vez enviou um breve bilhete ao irmão António de Pádua, no qual
dizia entre outras coisas: «Apraz-me que ensines a sagrada teologia aos irmãos,
sob a condição de que, no estudo, tu não apagues o espírito da santa oração e
devoção». Também o aproximar-se dos pequeninos ajuda a tornar-nos mais
inteligentes e sábios. E penso — não faço publicidade jesuítica — em santo
Inácio que pedia aos professores que fizessem o voto de ensinar a catequese aos
pequeninos para compreender melhor a sabedoria de Deus.
A Virgem Imaculada obtenha que todos os teólogos e teólogas
cresçam neste espírito de oração e devoção, e assim, com profundo sentido de
humildade, sejam verdadeiros servos da Igreja. Acompanho-vos neste caminho com
a Bênção Apostólica, e peço-vos por favor que rezeis por mim, porque disso
preciso muito!
Sala dos Papas
Sexta-feira, 6 de Dezembro de
2013
Fonte: Libreria Editrice
Vaticana
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