LITURGIA DIÁRIA COMENTADA 06/10/2013
Comentando o Evangelho
(Antônio Carlos Santini - Comunidade Católica Nova Aliança): Em nossa vida,
tudo é graça. Tudo é dom. Mesmo o bem que fazemos, só o fazemos porque o amor
de Deus agiu em nós. Um santo dizia: “Se eu pequei, Deus me perdoou; se eu não pequei,
Deus me sustentou.” De fato, se o Senhor nos entregar a nós mesmos, às nossas
más inclinações, afastando-se de nós, boa coisa não sairá...
Hoje, mesmo na Igreja, cresce
outra vez a heresia pelagiana. Segundo esta concepção do homem, nós seríamos capazes
de fazer o bem e chegar à salvação apenas contando com nosso esforço e boa
vontade. Leia-se: sem a graça de Deus. Tal mistura de voluntarismo e esforço
heroico (derivada de uma ilusão otimista acerca de nossa natureza!) acaba por
dispensar a Deus e por nos colocar em seu pedestal.
Entretanto, este acesso de
loucura existencial é diretamente contradito pelo ensinamento de Jesus: “Sem
mim, nada podeis fazer.” (Jo 15,5.) Em tudo, dependemos do Senhor. Sem o
Espírito Santo, nos desviamos da verdade. Contando apenas conosco, decaímos em
terríveis degradações morais.
Ora, no Evangelho de hoje,
somos interpelados por esta frase dura de engolir: “Somos servos inúteis...”
Alguns pretendem atenuar a tradução: “Somos uns servos quaisquer... Somos uns
pobres servidores...” Mas é bater de frente contra a tradução direta (e
literal) da expressão original de São Lucas!
Creio que Jesus sabia o que
dizia aos nos qualificar assim. Por um lado, ao chamar apóstolos e discípulos,
é claro que Jesus contava com nossa cooperação na construção do Reino. Quis
precisar de nossa... inutilidade. Por outro lado, o Mestre devia saber do risco
que corremos quando cumprimos nossa obrigação e nos julgamos credores de Deus,
com direito a regalias e retribuições especiais. Ele sabe como a vaidade modula
nossa voz e orienta nossos gestos. Assim, dá-nos o rótulo de “inúteis” como
antídoto contra a soberba. Que bom!
Após uma de minhas primeiras
pregações, fui cumprimentado por uma freira bem velhinha (já em fase terminal,
devido a um câncer, sem que eu o soubesse). Minha resposta foi pedir-lhe que
rezasse por mim, para que eu não ficasse vaidoso. A baixinha cresceu à minha
frente, cheia de santa fúria, e botou o indicador em meu nariz: “Vaidoso?! Deus
sabe que você, sozinho, não vale nada!” Deus lhe pague, Irmã Margarida!
LITURGIA DIÁRIA COMENTADA 06/10/2013
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