A era do santo famoso - Pe. Zezinho
O mundo sempre buscou o sucesso. Notáveis e notórios sempre
os houve, Famosos também. Mas há os que aconteceram, sem querer acontecer. E há
os que fizeram de tudo para acontecer e ser chamados de nobres ou santos.
Traçaram cuidadosamente sua trajetória. Seriam notados pelo mundo! Há os que a
fama adota e há os que a perseguem, até que ela se renda a eles. É que fama e
notoriedade podem trazer riqueza, aplausos ou reconhecimento! Há um tipo de
crente que quer ser santo para ter imagens nos templos e peregrinos no seu
túmulo. De santos têm muito pouco!
Noto que, na era fortemente voltada para o sucesso pessoal
há igrejas construindo teologias em cima disso. O testemunho de vitória pessoal
tornou-se uma assinatura de santidade. "Deus me deu sucesso pessoal porque
eu me converti" Há muito "eu" nos depoimentos e testemunhos
desses crentes e muito pouco nós, eles, os outros santos, aqueles a quem Deus
favoreceu antes de nós.
É por essa razão que questiono a catequese do testemunho, da
forma como tem sido vivida na mídia. A meu ver, é exagerada. Gostaria de ver
esses piedosos cristãos falando mais da vida dos verdadeiros santos, provados
por anos e anos de virtude. Não me impressiono com o testemunho de vida de quem
se converteu há seis meses. É pouco tempo demais para se colocar uma vida na
vitrine!
Andam esquecidas as histórias de Francisco de Assis, Vicente
de Paula, Tereza de Ávila, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Dom Elder, Irmã
Doroti. Os novos arautos de Cristo falam muito mais do que Deus fez por eles
mesmos. Não são testemunhas dos outros, são testemunhas de si mesmos. "Eu
era assim e agora sou assado!" A meu ver é uma perigosa mesmice, e, se
existisse o termo, eu diria "euísse", egocentrismo demais disfarçado
de testemunho.
Torno a dizer que não sou contra o testemunho pessoal. Sou
contra o exagero dos testemunhos de vida na mídia atual. O mundo, a fé, o
cristianismo não começaram com esses indivíduos. Deus fez muitos santos antes
deles e fará muitos depois. Que os novos santos redimensionem os seus chamados
e suas santidades. Não são assim tão importantes quanto pensam ser!
Diminuam-se, e é possível que, então, o Cristo cresça através do seu humilde
testemunho. Falem menos de si mesmos e, quem sabe, um dia o mundo falará mais
deles, exatamente porque falaram pouco de si.
O modelo é a mãe do Cristo, a primeira cristã. E alguém
podia apontar para si mesma e contar episódios da sua vida era ela. Não o fez.
Há evangelhos apócrifos que pretendem resgatar seu testemunho, mas pecam pela
vaidade. Não podem ter sido palavras dela. Maria viu muito, viveu muito e falou
pouco de si mesma! E quando falou, deixou claro que seria elogiada por causa do
Filho que teria. Alteridade! Disso, Maria entendeu!
Texto: Pe. Zezinho, scj - padrezezinhoscj.com
Fonte: Edições Paulinas
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