Nada de Bacalhoada
Escrevi este texto para dar uma puxada de orelha em alguns dos meus irmãos católicos. Mas, até como cultura geral, decidi partilhá-lo com todos os meus contatos, mesmo ateus e agnósticos.
Primeiro, peço que imagine que alguém muito querido seu acabou de morrer. Se, por uma infeliz coincidência, isto de fato aconteceu, certamente você não estará lendo este texto, já que, com a correria que velório e enterro produzem, nem há tempo e nem clima para abrir caixa postal.
E se ocorreu recentemente, de modo que já se passaram alguns dias do enterro, acho que pelo menos vai ajudar na compreensão do que será exposto aqui. Espero, todavia, que não tenha acontecido e que fiquemos só na imaginação.
Normalmente, dependendo do grau de proximidade de uma pessoa falecida, é possível que, ao receber a notícia, você perca a fome e o apetite, de maneira que chegue ao ponto até de não querer comer nada. Todavia, mesmo sem vontade, é sempre recomendável comer alguma coisinha e também se hidratar, a fim de que não se venha a passar mal, além do que a própria noticia ruim - já por si só - ocasiona.
Pois bem, comer alguma “coisinha” já indica que se deve comer com moderação, apenas para não ficar totalmente em jejum e vir a desmaiar, ou a ter tontura, tremedeira, dor de cabeça, irritabilidade etc.
Assim sendo, meu irmão católico, por que motivo, em plena Sexta-Feira da Paixão, você faz questão de preparar e/ou comer uma bela de uma bacalhoada?
Tudo bem que Jesus já morreu, ressuscitou e está vivo para sempre. Mas você, irmão católico, sabe que a liturgia não é um faz-de-conta. Não é teatrinho. Já como era antes de Cristo, os judeus, todos os anos – e isto até hoje -, celebram a festa da Páscoa. Comemoram a libertação de seu povo da escravidão do Egito.
Como deve ser conhecido, na noite da fuga, cada família dos hebreus se reuniu, matou um cordeiro e comeu-o juntamente com ervas amargas e pães ázimos (sem fermento). E comeram às pressas. Também tiveram que aspergir o sangue do cordeiro imolado no umbral da porta de suas casas, pois o filho primogênito de cada família onde não houvesse sangue aspergido na porta seria morto. Esta história é bem conhecida: morreram os primogênitos dos egípcios e, aí, finalmente, o faraó permitiu que Moisés saísse do Egito com o seu povo. Depois, os egípcios acabaram indo atrás dos hebreus, mas morreram afogados no Mar Vermelho.
Ora, embora esta fuga tenha ocorrido uma única vez, os judeus, todos os anos celebram essa vitória fazendo a mesma refeição que seus antepassados fizeram naquela noite: comendo um cordeiro imolado, com ervas amargas e pães ázimos. O que é isso? Repetição? Teatrinho? Fingimento? Faz-de-conta? De modo nenhum. O nome tecnicamente correto é atualização.
Em todas as religiões, um ritual é sempre uma cerimônia de atualização. Como assim? Em qualquer ritual, saímos do tempo cronológico (de cronos, que significa tempo em grego), no qual há passado, presente e futuro, para entrarmos no tempo “kairológico” (de kairós, que em grego também significa tempo, mas no qual não há passado, nem futuro, e, sim, um eterno presente). É o tempo de Deus, em que “um dia são como mil anos e mil anos são como um dia”. Por isso, Jesus pôde dizer a um dos crucificados ao seu lado: “hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”.
Na atualização, você não repete um gesto passado, mas, ao contrário, você é que é transportado para o momento em que ele ocorreu, de maneira a participar dele. Exemplificando: como as novas gerações de judeus não estavam naquele dia da libertação, no ritual se tem a possibilidade de incluir todos os judeus que nasceram depois naquele evento único e irrepetível. Não é isso o que faz também a Missa para o católico? Jesus morreu uma só vez. Não morre, portanto, de novo no altar. Contudo, em cada Missa, sua paixão e morte são atualizadas.
Bem resumidamente, então, é isso o que faz a Liturgia, seja judaica, seja católica ou outras.
Agora posso voltar à bacalhoada. Na Sexta-Feira da Paixão, portanto, ao atualizarmos aquele evento de quase dois mil anos atrás, estamos inserindo os cristãos que participam daquele ritual no dia em que ele de fato ocorreu. É como se voltássemos no tempo (aqui cronológico) para estarmos naquela época vivendo aquele instante único e irrepetível. Só que, no tempo “kairológico” – repito – o tempo de Deus, estamos lá de fato.
Neste ponto, há um detalhe aparentemente absurdo: na noite anterior à morte de Jesus, Ele se reuniu com seus apóstolos para a Ceia Pascal. Num primeiro momento, era a ceia que todos os judeus fazem todos os anos. Entretanto, como Ele, no dia seguinte, seria morto (sacrificado), tornado, dessa forma, o Cordeiro de Deus, uma nova Páscoa foi instituída ali.
E o que há de aparentemente absurdo nisso? É que Jesus atualiza algo que, no tempo cronológico, ainda não havia ocorrido. Isto inclusive lembra aquela expressão que todo católico bem devoto conhece: “relógio que andando atrasado”, quando, por exemplo, nos referimos ao fato de que Jesus salvou Maria antes que ela nascesse!
Como isso? É porque já no Antigo Testamento, notamos que tudo que era para Deus tinha que ser do bom e do melhor: desde a oferta das primícias, dos materiais usados no templo (ouro, prata, bronze, mármore etc.) e das madeiras “de lei” (cedro e acácia), até as características que um animal que seria oferecido em sacrifício tinha que ter (ser novinho - de um ano, sem mancha, sem defeito).
Mesmo o jumentinho que Jesus montou antes de entrar em Jerusalém, onde foi saudado com grande alegria era um animal que nunca tinha sido montado.
Assim, a única maneira para que o útero de Maria pudesse ser digno (“morada digna”) de gerar o Rei da Glória era que já nascesse sem a mancha do pecado de Adão (pecado original). E como Jesus foi o único Filho que pôde escolher a mãe que iria ter, e sabendo que, para Deus – como já afirmado –, deve se dado sempre o que há de bom e do melhor, é muito triste e dolorido quando ouvimos alguém afirmar que Maria era uma mulher qualquer. Aliás, para mim, mulher “qualquer” é eufemismo para prostituta. Muito desrespeitoso, portanto.
Mas voltemos a Jesus: liturgicamente, então, Jesus morre toda Sexta-Feira da Paixão, além de morrer em toda Missa, embora a Sexta da Paixão seja o único dia do ano em que não há Missa. Insisto, porém: não morre de novo. É a mesma única morte já ocorrida, mas que, no tempo de Deus - ao ser atualizada no rito -, se presentifica. De modo que todo católico, para viver devidamente a paixão e morte de Cristo, deve, em toda Sexta-Feira Santa, viver como se alguém muito querido tivesse morrido, o que, ritualmente, ocorre de fato. Também para ajudar a ter essa atitude, a Igreja ordena jejum e abstinência de carne.
Com tais privações (mortificação, penitência, sacrifício) só tem sentido mesmo comer só alguma coisinha, já que o clima de tristeza e silêncio frente à prisão, tortura e morte de alguém que lhe é muito caro deve lhe tirar toda fome e apetite.
Ainda assim, apesar de a Igreja ordenar o jejum de carne, concede, entretanto, o direito de comer peixe. Mas isso é uma concessão, não é uma obrigação. Se quiser comer só vegetais, ou comer só pão, melhor ainda. E se aguentar não comer nada, perfeito! O importante é manter o clima de respeito, silêncio, meditação, contemplação, mística, de oração e de recolhimento. Daí também nada de cantar ou música alta e animada; nada de dançar; de contar piada; de gargalhar. Você faria isso num velório? E por esse mesmo motivo, caso seu aniversário caia este ano bem na Sexta da Paixão, e você tem o costume de fazer festa, recomendo que – excepcionalmente - deixe para festejar só no domingo.
É claro que há alegrias que podem acontecer num dia desses que não há como evitar: uma mãe que dá à luz; uma pessoa que estava internada e desenganada pelos médicos que se recupera e ganha alta; ou, ainda, um filho preso que ganha a liberdade, feito um Barrabás merecidamente solto etc. Até encontrar um grande amor pode ocorrer mesmo num velório, não é? Contudo, convém manter o máximo que se puder o clima litúrgico do dia. Nada de soltar rojão..., bom, você entendeu.
Isto posto, você já está em condições de entender a bizarrice que é preparar uma suntuosa refeição. Afinal, de que adianta se privar de carne e comer algo de que você gosta mais? Onde está o sacrifício aí? Tudo bem que está liberado o consumo de peixe. Mas coma um peixinho qualquer: um filezinho de peixe (cação, sardinha, por exemplo). O importante é que seja uma coisa simplesinha, só para não ficar com fome depois.
Agora, se você não gosta de bacalhau, comê-lo nesse dia, num certo sentido, até que cairia bem. O problema é que não é só o bacalhau em si. É que existe um certo glamour - um requinte - na bacalhoada, que a torna chique demais para o momento. Fica com cara de banquete, de almoço de gala... Não combina.
E já começa pelo preço, né? Por que pagar tão caro por um produto que – diga-se de passagem – é, no fundo, gato por lebre? Explico: uma conhecida minha, que escreve sobre gastronomia num grande veículo, afirmou que o bacalhau que é vendido por aqui é o mais inferior: é o da espécie saithe. Há um melhorzinho, chamado macrocephalus, mas o top mesmo é o gadus morhua. Mas se o vagabundo já é caro, imagine o melhor.
Eu sei que talvez muito provavelmente foram os nossos colonizadores portugueses que trouxeram a bacalhoada para o Brasil. Mas considere que Portugal está muito mais próximo da Noruega que nós, o que possivelmente torne tal iguaria mais em conta lá. Mesmo porque a cidade do Porto fica em Portugal, se bem que a mesma conhecida minha disse que não existe bacalhau do Porto. O Porto, como um entreposto, apenas importa (boa aliteração!). Com isso, mesmo em Portugal deve ser meio carinho.
Olhe, faça o seguinte: deixe para a festa da Páscoa o que tiver de melhor pra comer. Por que não fazer, então, uma bela de uma refeição – até mesmo uma bacalhoada, se você gosta tanto – no domingo de Páscoa? Por que não inovar? Quem falou que tem que ser macarrão com frango ou lasanha todo domingo? Já que é um domingo diferente - verdadeiramente festivo - prepare/coma o que mais aprecia neste domingo especial. Aí sim, hein?
Mas se você, irmão católico, está se preparando para uma bela bacalhoada na Sexta-Feira Santa, você está boiando, mesmo sem ser peixe, e desculpe a franqueza: você não entendeu nada. Como nada qualquer peixe que comemos.
Ufa! Desculpe o longo texto. Mas eu estava com a garganta meio “atravessada” há anos com essa espinha que me incomodava. Espinha de peixe? Ou “espinho na carne”?
Carne?! Só se for de peixe-boi. rsrsrs
Brincadeiras à parte, obrigado por aguentar meu desabafo! Pronto, falei!
#tamujunto
Texto: Marcos
Enviado por: Décio Maurina Ramos
Preciso!
ResponderExcluir