Jesus nos ensina a rezar: “Não nos deixeis cair em
tentação”. Ele mesmo quis experimentar os limites humanos, inclusive sofrendo
tentações, conforme narra o Evangelho: “Foi tentado pelo diabo durante quarenta
dias” (Lucas 4,2). Mas nos mostrou como vencer as sugestões malvadas.
Indicou-nos a fortificação da vontade, com a fé esclarecida, a prática da
oração, da penitência, do jejum, da caridade e da solidariedade.
Está na cultura hodierna a caracterização da vontade da
pessoa comandada pelos instintos e pela busca de bem estar sem olhar
primordialmente para verdades e valores
objetivos. Estes apresentam um ideal mais amplo e de verdadeira ajuda para a
realização humana. Cai-se, então, com facilidade, em inúmeras tentações: a do
orgulho e da ambição, a busca do ter acima do valor do ser, o acúmulo de bens
materiais como objetivo de vida, o poder usado para se terem vantagens a
qualquer preço, a politicagem traidora do bem comum, o desvio de conduta,
roubando-se oportunidades de promoção do semelhante, a falta de solidariedade
para com os empobrecidos e discriminados, o uso da religiosidade sem
compromisso com o bem do próximo e com
fixação da fé alienante, a
procura de prazeres de forma animalesca e sem parâmetro ético e moral, o autoritarismo,
o uso da mídia para impor idéias e ideais materialistas, o consumismo exagerado
sem compromisso com os mais carentes, a desvalorização da família como
instituição fundamental para a formação e o desenvolvimento da vida mais humana
e saudável ética, psíquica e moralmente, a falta de políticas públicas de
formação global da pessoa humana...
Vencer as tentações exige mudança de visão para uma vida de
sentido elevado, como o próprio Cristo faz e propõe. A exercitação da vontade
para se conquistar o bem maior da vida se dá com a tenacidade de esforço para a
prática do altruísmo, com o ingrediente do amor a Deus e ao semelhante. Este
tempo de quarenta dias de maior penitência e oração em preparação à celebração
da Páscoa nos estimula a assumirmos nossa vida com a missão proposta por Deus.
Somos corpo, mas também espírito. É preciso conjugar os dois para o predomínio
da missão de fazer com que sua unidade aconteça de modo produtivo. Olhar para o
objetivo da vida nos faz sermos uma unidade de corpo espiritualizado, a ponto
de buscarmos o tesouro maior da existência, o próprio Deus. Ele deseja nossa
união, entre nós e com Ele, para vivermos na terra como irmãos e irmãs. A
solidariedade para com o próximo nos faz ser pessoas que só pensam em realizar
o bem por causa e em obediência a Deus. Daí o andarmos pelo caminho mais
estreito da renúncia a tudo o que nos tira do sentido da vida, conforme a
proposta do Filho de Deus. Assim, com Ele, fazemos a verdadeira Páscoa de
transformação de nossa vida, para que ela seja produtora de vida de sentido
para todos.
Um meio de treinarmos nossa sensibilidade para a prática do
amor é sermos mais solidários com a juventude e a ajudarmos a ser protagonista
do novo caminho com Cristo, de acordo com o tema da Campanha da Fraternidade
deste ano. A juventude precisa tomar o
caminho que a leve a promover a vida
plena de Cristo para a sociedade, superando a tentação do egoísmo e dos
desacertos na vida.
Dom José Alberto Moura / Arcebispo de Montes Claros
Fonte: CNBB
cnbb.org.br/site/articulistas/dom-jose-alberto-moura/11366-tentacao

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