terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Estudo do Evangelho de Marcos capitulo 14

14,1-11 – Proclamar que Jesus é o Messias

Enquanto os sacerdotes perturbados com a situação que se instalava, buscavam uma maneira de exterminar a Boa Nova que não estava comprometida com os grupos opressores existentes, que falava em igualdade, solidariedade e perdão, em Betânia a história era outra.

Jesus é recebido por Simão um ex-leproso (quem sabe tenha sido curado pelo próprio Jesus). Na tradição judaica sentar-se a mesa para comer era sinal de respeito e apreço pelo convidado, nesse instante adentra no ambiente uma mulher trazendo um vidro de perfume muito caro (o equivalente a 300 dias de salário de um trabalhador agrícola) e unge a cabeça de Jesus. Com certeza o que motivou esta mulher foi um profundo sentimento de gratidão, enquanto todos aguardavam um sinal que atestasse ser ele o Messias, o gesto dela já assegurava sua plena convicção de que ele era o Messias.

 
Segundo São João a critica ao gesto da mulher partiu de Judas Iscariotes (o traidor), a resposta de Jesus não diz respeito a desprezar o necessitado, até porque a sua missão era justamente a de acolhê-los, mas Jesus aproveita para alertar seus discípulos de que se aproxima à hora de deixá-los fisicamente. “Ela fez o que pode: embalsamou-me antecipadamente o corpo para a sepultura.” (v.8), é lógico que para os seguidores de Jesus essas palavras só farão sentido após a Paixão e Ressurreição.

Judas não deva ter ficado muito contente com a atitude de Jesus por isso resolveu unir-se aos inimigos do Messias. Existem duas linhas de pensamentos sobre esse episodio, uma acredita que ele viu cair por terra toda à possibilidade de poder, se decepcionou, pois esperava outro Messias e traindo a confiança de seu Mestre vendeu-se aos sacerdotes. Outra visão diz que a atitude de Judas foi um ato de desespero para pressionar Jesus a uma reação mais enérgica. E você o que acha?

14,12-16 – Jesus sempre aponta o caminho

Muitas vezes buscamos um caminho a seguir, dá um direcionamento apropriado a nossa vida e não sabemos como proceder, isso acontece porque não estamos atentos aos sinais de Jesus. Observe que os discípulos não sabiam o que fazer “onde vamos preparar a Páscoa?” (v.12), Jesus diz: “sigam o homem que estiver carregando um jarro com água”.

Aqui vem a duvida dos discípulos (e muitas vezes a nossa), a quem devemos seguir, qual o rumo certo a tomar, são tantas as possibilidades. Acontece que Jesus sempre aponta o caminho, basta saber observar. Evidentemente que teriam várias pessoas transportando água, só que para o costume da época eram as mulheres que faziam esse serviço. Jesus sempre nos guiará para o caminho certo: “siga o homem”.

14,17-21 – Ai daquele homem por quem o Filho do homem for traído!

Dizer que a escuridão é a ausência da luz, deveria ser o óbvio e até desnecessário falar. Acontece que a escuridão é bem mais que a ausência da luz, da mesma forma é dizer que o inferno é a ausência de Deus. Judas estava na presença da luz e vivia em uma completa escuridão. Os valores morais do traidor com certeza foram substituídos pela ambição, a amizade e lealdade cederam espaço ao dinheiro e ao poder (será que isso acontece em nossos dias?). Agora começa a fazer sentido o que Jesus falou: “os filhos se levantarão contra seus pais e os farão condenar a morte (Mc 13,12).

ai daquele homem por quem o Filho do homem for traído! Melhor lhe seria que nunca tivesse nascido” (v.21). Já houve momentos em que por impulso tomamos uma decisão errada, ou fomos infelizes em uma colocação, passado o calor do momento refletimos e percebemos o quanto fomos injustos ou ingratos, e certamente nos sentimos muito mal com o ocorrido. Se tivermos a oportunidade de nos desculpar e pedir perdão tudo bem, mas quando não é possível. A culpa irá nos torturar por um longo tempo.

Agora imagina o que acontece com alguém que destrói a esperança de toda uma nação, Jesus não estava julgando ou condenando Judas, muito pelo contrario, conhecendo as conseqüências da infeliz decisão do discípulo estava por antecipação partilhando da sua dor.

14,22-31 – Perdoai setenta vezes sete

Jesus o Cordeiro de Deus, a aliança definitiva, aquele que se oferece para a Salvação da humanidade, sempre se manteve fiel ao projeto de Deus, primeiro partilhou com o povo o alimento que sustenta a vida, o pão, agora oferece o alimento que dá a vida, a Eucaristia. A Eucaristia é o sinal da vitória eterna.

Caminhando para o Monte das Oliveiras, fala para os discípulos sobre a fraqueza humana diante das dificuldades, afirma que eles ainda não estão preparados e revestidos da força que vem de Deus para dar testemunho do Evangelho. Pedro, não em tom de arrogância, mas movido pelo amor, acredita ser capaz de enfrentar todas as situações de perigo e provações que estão por vir. Jesus nos conhece e sabe que iremos cair varias vezes, por isso disse: “perdoai setenta vezes sete” (Mt 18,22).

14,32-42 – Vigiai e orai

Levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a ter pavor e a angustiar-se” (v.33). Observe um detalhe; no momento da Transfiguração (alegria e glória), estavam com ele Pedro, Tiago e João, agora no Getsêmani (pavor e angustia) permanece com ele o mesmo trio. Já deu para perceber onde quero chegar, na vida temos que ter pessoas (mesmo que imperfeitas) com quem podemos contar, com quem podemos partilhar nossas vitórias, mas principalmente nossas derrotas.

orou para que, se possível, esta hora passasse longe dele.” (v.35) Jesus verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, mostra sua grandeza se aniquilando diante de seus seguidores, ensina que a real força está em se reconhecer fraco e dependente, Jesus precisa de Deus Pai, e o encontra na oração.

É pela oração que nos despimos dos nossos medos e vícios diante de Deus, e é através dela que o Pai nos alimenta com a fé e a esperança. Entregar-se ao projeto do Reino em detrimento da nossa satisfação pessoal é a missão de todo cristão.

Jesus ao retornar encontra Pedro dormindo e diz: “Simão, estás dormindo? Não tiveste força para vigiar uma hora? Vigiai e orai, a fim de não cairdes em poder da tentação.” (vv. 37-38) Marcos desassocia o Pedro discípulo, do Simão simples pescador, ao chamá-lo pelo nome de outrora, Jesus recorda que a atitude de quem não está vigilante e de prontidão, não condiz com a figura do discípulo anunciador da Boa Nova.

Jesus aconselha vigiar e orar para combater as forças do inimigo, já São Paulo reconhecendo-se fraco e pecador (e é o nosso caso também), diz que devemos “orar sem cessar” (1Ts 5,17). A relação espírito-carne segundo os comentadores da TEB, diz que “Deus colocou no homem um espírito orientado para o bem, mas o homem é, ao mesmo tempo, inteiramente carne, enquanto sujeito ao poder do pecado”. Podemos relacionar a isto a atitude de Judas Iscariotes.

14,43-52 – A força que emana do Espírito Santo

A história de Jesus começa a se afunilar as pedras estão se encaixando e é chegada à hora de cada um assumir sua posição. Judas já fez sua escolha e está cumprindo seu papel, com uma saudação comum entre discípulo e mestre ele entrega o Messias aos carrascos. Um incidente durante a prisão poderia ter desencadeado uma retaliação desastrosa se não fosse a intervenção de Jesus. Pedro decepa a orelha do servo Malco que imediatamente é curado por Jesus.

Então todos o abandonaram e fugiram” (v.50). Jesus estava muito bem assessorado, Judas o traiu enquanto os outros debandaram. Uma coisa podemos constatar, sem a força do Espírito Santo de Deus não somos nada, não passamos de meros espectadores que permanecemos de pé aplaudindo enquanto as luzes estão acessas, na hora em que as cortinas se fecham damos as costas e partimos. É fácil seguir Jesus quando tudo vai bem, agora dar testemunho quando tudo dá errado, bem, ai é outra história.

Quanto ao único Jovem que seguia Jesus, apenas Marcos faz referência, alguns comentadores acreditam tratar-se do próprio evangelista ou que foi acrescido para representar o discípulo fiel.

14,53-65 – És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?

A aflição dos inimigos de Jesus chega ao seu ápice, podemos caracterizar como sendo o cumulo do desespero, usam de toda malicia buscando uma prova para condená-lo a morte, não achando tentam inutilmente forjar algo que seja convincente.

Interessante como pessoas de caráter medíocre conseguem distorcer com facilidade uma verdade e usá-la a seu favor. Segundo nos relata o evangelista João (2,19) Jesus disse: “Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias”, referindo-se a sua ressurreição, mas os sacerdotes entenderam desta forma: “Eu destruirei este templo, feito por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, que não será feito por mãos de homens.” (v.58)

O Sumo Sacerdote vendo que nada adiantava resolve pressionar Jesus: “És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?” (v.61). Acredito que Jesus não aguentando mais o ato ridículo ali instalado, um verdadeiro circo a céu aberto, resolveu dá um basta a tanta baboseira e disse: “Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu.” (v.62).

Jesus de uma só vez enquadrou todo o Sinédrio (anciãos, escribas e sacerdotes), acontece que sua resposta trouxe grandes verdades e sérias conseqüências. Entenda o tamanho do problema que Jesus criou. Declarar-se Filho de Deus até ai tudo bem, não era considerado blasfêmia, agora sentar a direita do Pai e vindo sobre as nuvens, já é querer fazer parte do Divino, era apossar-se das atribuições de Deus, ou seja, blasfêmia das grandes, não é a toa que todos queriam linchá-lo.

14,66-72 – Coloque-se nos braços de Jesus

Tentar analisar Pedro é a mesma coisa que tentar entrar na cabeça de um prego, é humanamente impossível. Pedro um homem rude que nunca pensou antes de falar, o que será que levou Jesus a simpatizar tanto com ele. Podemos dizer que uma das maiores virtudes dele era sempre se deixar guiar pela emoção, não sabia agir com falsidade, era como as criancinhas que Jesus tanto falou. Ir de um extremo ao outro para Pedro era comum, mantinha uma relação com Jesus não de Mestre e discípulo, mas de verdadeiros amigos, em um instante encontra-se falando da Divindade de Jesus e sendo elogiado, no instante seguinte é chamado de satanás.

Se fossemos falar sobre Pedro teríamos material para um livro, por enquanto vamos nos ater ao presente episodio. Pedro nega Jesus por três vezes e isso para ele é doloroso, o leva ao choro, choro de arrependimento, de desolação, de sofrimento pelo amigo, de não ter sido forte o suficiente, choro de quem não consegue ainda entender como o Messias permitia ser tão humilhado, por que não reagia? Pedro mesmo inundado por todo pavor humano era o único que ainda seguia Jesus, esteve com o amigo até onde sua fraqueza permitiu.

A história de Pedro (devido ao seu alto grau de importância é contada de forma igual e com riqueza de detalhes pelos quatro evangelistas) é também a nossa história, somos os filhos amados e amadas que muitas vezes fraquejamos, que negamos, que damos as costas, que choramos e nos desesperamos, algumas vezes ficamos a distância, outras fugimos, mas sempre reconhecemos que somos dependentes, que erramos, que magoamos. Ainda bem que o amigo de Pedro, que também é nosso amigo, está sempre de braços abertos esperando o nosso retorno.

Texto: Ricardo e Marta
Revisão: Padre Rivaldo

Fontes de Pesquisa:
·         Atlas Bíblico (Wolfgang Zwicket - Ed. Paulinas)
·         Bíblia Tradução Ecumênica (Ed. Loyola)
·         Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulinas)
·         Bíblia Sagrada Pastoral (Ed. Paulus)
·         Bíblia Ave-Maria (Ed. Ave-Maria)
·         Dicionário Bíblico (Ed. Paulus)
·         Dicionário de Símbolos (Ed. Paulus)
·         Coleção como ler (Ed. Paulus)

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