sábado, 29 de novembro de 2014

1º Domingo do Advento: Deus vem como Redentor - Ano B

Um Deus salvador e redentor nos vem espontaneamente ao pensamento quando as coisas vão mal e uma situação é humanamente insolúvel. Mas estará certa essa concepção de Deus e de sua manifestação no meio de nós? Será justo pedir à sua onipotência que resolva nossos problemas? Não seria mais digno o homem aceitar sua derrota e desafiar um destino adverso com as próprias forças, em lugar de recorrer à força de Deus? Certamente, impõe-se uma purificação da imagem que temos de Deus; mas a afirmação de sua transcendência não leva a concluir que ele não se interesse por nós de modo concreto e imprevisível como o amor. Ele é um "Deus dos homens”, não o Deus cósmico distante e perfeito no seu ser divino. Fez-nos à sua imagem, e por isso a nossa identidade não pode prescindir de sua fisionomia; ele, que nos deu a vida, faz parte da nossa história, e por isso nosso futuro só se cumprirá mediante a realização do seu plano; ele nos criou livres e por isso não força as nossas decisões, mas intervém suavemente e espera com paciência que aceitemos dialogar com ele como pessoas." 

Abrirá os céus e fará prodígios

Se Deus é "pai", se é "redentor", por que permite circunstâncias tão dolorosas e tolera filhos tão desobedientes? (v. 17). É a eterna pergunta da liberdade humana sobre a origem do mal, que o profeta não resolve; ele anuncia a intervenção de um Deus que abrirá os céus e fará na terra prodígios e maravilhas que recolocarão todas as coisas em seus lugares, castigando os inimigos. É necessário, pois, confiar em Deus para sair da infelicidade.

Muitas vezes nosso crescimento se faz sem uma referência explícita a ele, cuja presença discreta e cheia de amor nos envolve completamente; é de lamentar que sejam sobretudo as situações de fracasso, angústias e remorso que nos levem a dirigir-nos a ele, reconhecendo-o como criador, pai e redentor. Na pessoa de Cristo, Deus se manifestou a nós como aquele que se interessou de tal modo pelos homens que quis participar intimamente do nosso destino, e assim tornar-se o Deus próximo e familiar (com o risco de não ser reconhecido pelos seus), para revelar-nos nossa dignidade. O homem-Deus "Cristo Jesus" nos resgata aceitando ser totalmente disponível ao plano de Deus, não contar consigo, viver desprendido de toda segurança para se deixar invadir pelo mistério de Deus e estar em plena comunhão com ele.

Virá salvar-nos por meio do Filho

"O mundo se apresenta hoje ao mesmo tempo poderoso e fraco, capaz de fazer o melhor e o pior, enquanto diante dele se abre o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio". O cérebro eletrônico oculta talvez em seus lóbulos mecânicos a solução de todos os problemas que angustiam o homem da nossa civilização: as relações trabalho-lazer, produção-consumo, riqueza-pobreza, fecundidade- mortalidade, progresso técnico-progresso social, autoridade- liberdade... serão talvez resolvidas por um cartão perfurado. Nasce aos nossos olhos um novo mundo ordenado e esterilizado, criado por um homem em plena posse de seus meios intelectuais e técnicos. Que necessidade há então de um Redentor? Para remir-nos de quê?

Essa ideia é o resultado de um ingênuo otimismo; cada dia o homem percebe estar renovando a construção da torre de Babel: um trabalho frenético sobre as areias movediças da divisão, do pecado, da morte. O cristão reconhece Deus como Pai e Redentor, e afirma que não é possível a libertação do pecado e do mal sem a intervenção de Deus. Mas desde que o Pai enviou seu Filho ao mundo, o cristão não espera mais os prodígios de um Deus que restabelece a ordem permanecendo de fora. Sabe que Deus age através do Filho; sabe que o "Redentor" colabora com o homem e dá à sua inserção no mundo um significado de salvação. Porque, como afirma Paulo (2ª leitura), "nele (Jesus Cristo) fostes cumulados de todas as riquezas, todas as da palavra e todas as do conhecimento".

Vigilantes, à espera da sua vinda

Se é assim que Deus vem, então torna-se evidente qual deve ser nossa atitude: abandonar-nos a Deus, dispor nossa vida na linha do serviço e da colaboração ao seu plano; não nos prender ao que é antigo e ultrapassado; estar prontos para a perene novidade de Deus; não dormir, mas vigiar com amor para reconhecê-lo em sua continua vinda (evangelho). Em sua vinda definitiva, quando houver terminado nossa aventura de "pobres", ser-nos-á revelada sua verdadeira face e nos será dada a plena comunhão de vida com nosso Deus, o Pai do Senhor Jesus Cristo.

Fonte: Missal Dominical

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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia  

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